terça-feira, 11 de agosto de 2020

Resenha do livro: "Congregação da Missão: 200 anos no Brasil"

"Destinado ao público em geral, a escrita do volume é caracterizada por uma linguagem direta e clara, sem apresentar a complexidade das análises metodológicas acadêmicas, mas marcada pela forte componente divulgativa da história do Missionários Vicentinos no Brasil, e, como tal, servindo de introdução para todos aqueles que se interessam pela história das congregações religiosas no Brasil", escreve Luiz Fernando Medeiros Rodrigues, SJ, professor do PPG-História Unisinos e Curador do Memorial Jesuíta-Unisinos, em resenha da obra Congregação da Missão: 200 anos no Brasil, de Eli Chaves dos Santos [1] (Congregação da Missão: 200 anos no Brasil. Rio de Janeiro: Prov. Bras. da Congregação da Missão, 2020, 208p.).

 

Luiz Fernando Medeiros Rodrigues é professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), graduado em Filosofia Eclesiástica pela Faculdade de Filosofia Cristo Rei (1982), em Estudos Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (1980), em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (1981), em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (1981) e em Teologia pela Pontificia Università Gregoriana (1986).  É mestre em História Eclesiástica pela Pontificia Università Gregoriana (1991), em Teologia Fundamental pela Pontificia Università Gregoriana (1987). Também é doutor em História Eclesiástica pela Pontificia Università Gregoriana (2006) e possui Pós-doutorado na Universidade do Porto. Integra o Grupo de Pesquisa-CNPq Jesuítas nas Américas.

 

Eis a resenha.

 

Para celebrar os 200 anos da chegada dos primeiros lazaristas portugueses (“Missionários Vicentinos”) ao Brasil, a Província Brasileira da Congregação da Missão (PBCM) faz memória de sua história com a publicação do volume “Congregação da Missão, 200 anos no Brasil”.

 

O livro, de autoria do padre lazarista Eli Chaves dos Santos, C.M. [1], e publicado em 2020 pela PBCM, quer “Recordar e celebrar o que foi para mudar ou revitalizar o que é, em vista de uma Igreja ‘em saída missionária em direção às periferias’” (p. 13). Este resulta de um minucioso trabalho de pesquisa nos arquivos da congregação, com consulta, muitas vezes, de documentos originais, relatórios, cartas e entrevistas, em que o autor espacializa e sintetiza uma história, que evidencia rigor em todo o trabalho realizado.

 

Destinado ao público em geral, a escrita do volume é caracterizada por uma linguagem direta e clara, sem apresentar a complexidade das análises metodológicas acadêmicas, mas marcada pela forte componente divulgativa da história do Missionários Vicentinos no Brasil, e, como tal, servindo de introdução para todos aqueles que se interessam pela história das congregações religiosas no Brasil.

Capa do livro (Foto: Divulgação)

Segmentada em seis breves capítulos, intercalados por “álbuns”, o autor aborda no primeiro capítulo a “Chegada dos lazaristas ao Brasil”, transportando o leitor para o ano de 1819, quando os padres lazaristas Leandro Rebelo Peixoto e Castro e Antônio Ferreira Viçoso desembarcaram no Rio de Janeiro, para as missões em Mato Grosso. Impossibilitados de estabelecerem missões em Mato Grosso, sob proposta de D. João VI, receberam a doação da Ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, situada na Serra do Caraça (hoje Catas AltasMG). Ali, fundaram o Colégio de Caraça, que viria a ser o berço e o pilar de apoio para o desenvolvimento da atuação apostólica da congregação no Brasil, centrada nas missões populares, na formação do clero e na educação da juventude.

 

O capítulo seguinte é dedicado aos desafios iniciais de fixação dos lazaristas em Minas Gerais. À chegada da congregação, o Brasil passava por importantes mudanças: o desgaste do sistema colonial levaria à independência (1822) e à formação e consolidação do novo império em clima de instabilidade social, política e econômica. A presença institucional da Igreja, ainda dependente do Estado, apresentava-se bastante frágil: apenas sete bispados, até inícios do século XIX. O clero, precariamente formado, continuava a depender financeiramente das côngruas estatais. Bispos e padres eram praticamente funcionários públicos. Predominava uma religiosidade popular, marcada por um forte sincretismo.

 

A relação entre a Igreja e o Estado era conflitiva, influenciada pelo regalismo e pelo liberalismo. Neste ambiente, os lazaristas dedicaram-se à ação missionária no interior de Minas Gerais, especialmente nos seminários, para a formação de missionários. Em 1827, os lazaristas passaram a administrar o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do CampoMinas Gerais. Poucos anos depois, em 1834, a congregação recebeu uma grande doação de terras em Campo Belo do Sertão da Farinha Podre (Campina Verde, MG). Ali, construíram uma igreja e fundaram um colégio, que se tornaria o ponto de irradiação pastoral e educacional em todo o triângulo Mineiro.

 

Contracapa do Livro (Foto: Divulgação)

Mas a expansão do campo de atuação da missão vicentina ocorreu em meio a dificuldades e muitos desafios: precariedade de estradas e meios de transporte, epidemias, escassez financeira, condições de vida ao limite da sobrevivência, além das tensões resultantes da convivência dos missionários com o regime político liberal e regalista. Mesmo contando com o apoio imperial, setores da sociedade brasileira, incomodados com a presença dos missionários no Caraça, teceram críticas e denúncias na imprensa, taxando os lazaristas de “jesuítas disfarçados”, ou de “santões que entram em Minas com os pés de lã e, na ânsia de dinheiro, “saem como gaviões a prearem os arraiais e vilas, a título de missões” (p. 33). Talvez, por toda essa pressão contrária, os lazaristas, em 1834, foram forçados a fechar o noviciado em Caraça.

 

Outro problema a que a congregação teve que fazer frente foi o da dispersão e a sobrecarga dos missionários, fruto da estreita relação com a administração imperial que instava à congregação a assunção de diversas frentes de apostolado. Com o aumento das dificuldades tanto ao interno da congregação, quanto nas relações contrárias aos interesses das elites liberais brasileiras, os lazaristas, em 1838, romperam com o Governo Geral da Congregação em Paris, criando a Congregação da Missão Brasileira.

 

A situação jurídica da congregação no Brasil também foi elemento que contribuiu para aumentar ainda mais as tensões internas e externas. Todavia, apesar da dispersão e da redução numérica de missionários, ainda em 1838, o ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos confiou aos lazaristas a vice-reitoria do Colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro, seguido da fundação do Colégio Assunção, em Ouro Preto, a pedido do presidente da Província de Minas Gerais. Por outro lado, a difícil situação financeira do Caraça e a ameaça da revolução iniciada em Santa Luzia (MG) abalou a missão vicentina. Por isso, em agosto de 1842, o colégio foi transferido para Campo Belo, deixando o Caraça praticamente abandonado.

 

Ao longo do texto, aprensentamos algumas fotos que ilustram a obra

Mais tarde, em 1854, no Caraça se instalaria o Seminário Maior do bispo lazarista de Mariana, que ali funcionaria até 1882. Depois de 20 anos da presença lazarista no Brasil, face à indisciplina interna, às insatisfações e à formação deficiente dos seminaristas, a situação da Congregação apresentava-se como crítica, ao ponto de, em 1845, permanecerem apenas 10 missionários. Esta foi a primeira grande crise.

 

Missão Vicentina na segunda metade do século XIX é apresentada no terceiro capítulo. Em 1844, o novo superior geral conseguiu do imperador a autorização para reatar as relações com a casa-mãe de Paris, considerada pelo governo uma autoridade estrangeira. A consequência imediata foi o envio de reforços vindos de Paris que, em 1849, chegaram à Mariana.

 

De 1848 a 1900, a Província recebeu novos missionários estrangeiros, contando com 228 vicentinos, dos quais 100 franceses, 90 de várias outras nacionalidades e apenas 38 brasileiros. Deste total, 48 deixariam a missão brasileira. Com este incremento de pessoal e ampliação geográfica de campo apostólico, a sede provincial foi estabelecida no Rio de Janeiro, iniciando o período da “hegemonia francesa”. Desta maneira, a província foi fortemente influenciada pelas orientações do então superior geral, P. Jean-Baptiste Étienne (1843-1874), que passou aos anais da Congregação como o restaurador da disciplina, das regularidades às regras comuns e às constituições da Congregação da Missão.

 

Os missionários franceses, antes de virem para o Brasil, recebiam uma preparação missionária que os ajudava a integrar-se nos seus apostolados missionários. Caracterizavam-se pelo estilo de vida austero e por uma formação teológica e espiritual que refletia a fidelidade às disposições da Igreja. De consequência, a Província brasileira se alinhou à hierarquia católica, promovendo reformas segundo as diretivas de Pio IX, impulsionadas pelos “bispos reformadores”. As reformas propostas voltaram-se a um intenso processo de implantação das orientações tridentinas, de afirmação da ortodoxia católica, à reforma do clero, e o fortalecimento das instituições eclesiásticas e dos costumes morais cristãos. O objetivo deste processo de “romanização” era a promoção de uma maior aproximação com Roma, acentuado pela obediência ao Papa. Tratava-se da reforma que os historiadores costumam classificar como “reforma ultramontana”.

 

No período de 1849 a 1900, os lazaristas se concentraram na direção de seminários diocesanos. Em alguns seminários, a atuação dos vicentinos foi curta e com poucos êxitos; em outros, os resultados foram exitosos. Não faltaram, porém, muitas dificuldades e conflitos: problemas de saúde, difícil adaptação dos vicentinos estrangeiros, desconhecimento da língua portuguesa, conflitos com a hierarquia e o clero diocesano, oposições por motivos culturais, ideológicos e políticos.

 

No geral, a atuação dos vicentinos nos seminários diocesanos se desenvolveu a partir das orientações tridentinas: fortalecimento dos seminários e um programa de estudos filosófico-teológicos, com uma educação humanística, marcados pela ênfase da santidade do sacerdócio com pastor de almas a santificar. No regime de internato, a formação vicentina dos seminaristas caracterizou-se pelo rígido regime disciplinar, voltada para o culto e para a pregação, sem levar muito em conta a realidade cultural local e sem envolvimento nas questões seculares e políticas. A prática sacramental e moral eram as preocupações centrais neste processo de formação. A ênfase estava na dogmática, na ortodoxia católica e na obediência ao Papa, e na rejeição das teorias liberais e regalistas. Como resultado, a formação dos lazaristas definiu o papel do sacerdócio na Igreja e na sociedade como sendo o principal agente da evangelização.

 

 

A formação assim concebida pelos missionários franceses refletia o sistema existente em Paris, ancorado nos tradicionais valores e costumes do carisma vicentino. O resultado foi a diminuição das entradas de candidatos brasileiros, abrindo espaço para os candidatos enviados de Paris. Mas, com o empreendimento de novas iniciativas voltadas aos brasileiros, os vicentinos criaram estruturas mais estáveis, gerando um gradual aumento do número de ingressantes brasileiros na congregação.

 

As missões populares continuaram desde o Caraça até o ParanáEspírito SantoBahia e Rio de Janeiro. Além da pregação das missões populares, os vicentinos colaboraram como capelães em hospitais onde atuavam as Filhas da Caridade. Estas missões eram relativamente curtas. Em um mês, os vicentinos catequizavam, com linguagem simples, mas direta, dando ênfase à conversão e à prática dos sacramentos. A catequese se caracterizava por ser moralizadora e doutrinal. Dom Viçoso, cujos arquivos vicentinos conservam cerca de 31 sermões, é exemplo desta prática de evangelização popular que propunha uma vivência sacramental e atos de piedade, mais ligados à paróquia e à figura do padre.

 

No aspecto social, as missões vicentinas deram mais atenção ao atendimento assistencial dos pobres e alguns serviços de alcance social, como construção e recuperação de cemitérios. Todavia, o caráter acentuadamente ultramontano desconsiderou uma percepção crítica das situações específicas de injustiças sócio-políticas, principalmente dos escravos, indígenas e camponeses, sem engajamento em ações de combate a estas situações.

 

Na educação, os vicentinos se restringiram aos colégios do Caraça e de Campo Belo. Quanto à obra educativa vicentina, o historiador Riolando Azzi [2] afirma que os padres da Missão tomaram o lugar dos jesuítas (expulsos do Brasil, em 1759), tanto na educação, quanto na formação do clero e na reforma da Igreja. Mas foi na formação do clero e na reforma tridentina e eclesiástica da Igreja brasileira que a colaboração lazarista foi de destaque.

 

missão Vicentina, durante o período republicano, argumento do quarto capítulo do volume, adquire uma nova feição. No final do século XIX, o envio de missionários estrangeiros vicentinos para a Província Brasileira da Congregação da Missão diminuiu face ao florescimento de vocações brasileiras.

 

Os lazaristas poloneses chegam ao Brasil em 1903 para atender as comunidades de emigrantes poloneses no sul do país. Em 1923, é a vez dos lazaristas holandeses, que se empenharam nas novas frentes missionárias no Norte e Nordeste. Estes dois grupos logo constituíram-se em províncias autônomas (Congregação da Missão Província do Sul – 1969 – e Província de Fortaleza da Congregação da Missão – 1967).

 

Contudo, no período de 1890 a 1960, os lazaristas continuaram os seus trabalhos missionários com o mesmo espírito de seus antecessores, apesar da mudança política implantada pela República (1890) e das consequentes exigências da separação entre Igreja e Estado. Neste sentido, a atuação lazarista reafirmou o espírito tridentino da romanização, mantendo uma posição conservadora e apologética em oposição às ideias modernistas e ao “espírito laicista” do governo republicano, auxiliando a Igreja brasileira a recuperar o prestígio social e político do catolicismo. Daí a ênfase no controle dos santuários e na conservação da piedade popular católica, incentivando novas devoções.

 

Quando, a partir de 1930, a Igreja passou do conflito à colaboração com o Estado, aproximando-se mais dos problemas sociais e políticos, a Congregação da Missão continuou a atuar nos seminários diocesanos, seu principal apostolado. É nesta época que os lazaristas assumiram os seminários de CuritibaS. Luís, MaranhãoBotucatu e Assis. Trabalharam na consolidação do Seminário Tridentino no Brasil. Programas pedagógicos e estruturas internas continuaram repetitivos e sem muita criatividade com relação aos períodos anteriores, sem muita atenção à realidade social, cultural e política. A filosofia aristotélica-tomista e a teologia escolástica dominavam a formação intelectual, embasada na metafísica dogmática. A formação, portanto, se desenvolvia dentro de uma orientação conservadora e apologética, em oposição ao liberalismo, ao comunismo e ao protestantismo. As ideias e práticas pastorais renovadoras, mesmo que com pequena aderência à realidade e à cultura popular, eram evitadas.

 

 

O descompasso deste processo formativo com a realidade brasileira começou a se mostrar evidente a partir das décadas de 1940-1950, colocando em xeque todo o processo formativo desenvolvido até então. Consequentemente, não faltaram tensões, questionamentos, insatisfações e conflitos da parte dos estudantes, de alguns formadores e bispos.

 

Após a 1a. Guerra Mundial, a Província de Paris deixou de enviar missionários para o Brasil. Foi no recrutamento vocacional e na organização da formação seminarística que os esforços dos lazaristas se concentraram. Nas primeiras décadas do século XX, vários seminaristas foram enviados para a França para estudar teologia em Dax. Note-se, porém, que no período de 1900 a 1959, mais de 30% deles deixaram a Congregação. A formação nos seminários não se desenvolveu de forma qualitativa e quantitativa como esperado. Em 1932, pregou-se a última missão popular a partir do Caraça. Apenas o centro missionário de Diamantina continuou ativo.

 

Face a esta situação de definhamento das missões populares, os lazaristas passaram a desenvolver as suas atividades pastorais nas paróquias. Paralelamente, a pastoral dos colégios gradativamente entrou em crise.

 

O período do Concílio Vaticano II, entre crises e mudanças, é o tema do capítulo quinto. A nova eclesiologia promulgada pelo Concílio expôs um processo histórico de crise e de desestruturação da eclesiologia tridentina, desencadeando no Brasil pós-64 um amplo movimento de renovação eclesial e teológica. Liderada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Igreja brasileira viveu um forte período de transformações e de modernização das estruturas eclesiais. A promoção do espírito de colegialidade e a reforma pastoral a partir da opção pelos pobres, com o surgimento das comunidades eclesiais de base, a reforma litúrgica, o espírito ecumênico e a teologia de libertação, provocaram mudanças no cenário eclesial brasileiro. O sistema de formação seminarístico foi inevitavelmente afetado.

 

 

Como não poderia deixar de ser, a onda de choque destas crises e mudanças eclesiais investiu fortemente sobre a vida e a missão da Província Brasileira da Congregação da Missão. Os lazaristas deixaram a direção de muitos dos seminários onde atuavam. Além das crises das obras tradicionais, a Congregação da Missão sofreu uma significativa redução de seus membros. Entre 1950 e 1967, 57,83% deixaram a Congregação. De 1967 a 1975, a Província não teve nenhuma nova emissão de votos perpétuos.

 

Em 1965, o superior geral enviou um visitador, P. Pierre Jamet, para avaliar a situação no Brasil. O resultado foi a renúncia, em 1967, do superior provincial, P. Demerval José Mont’Alvão, sucedido pelo P. José Paulo Sales. Mas coube ao novo superior provincial, P. José Elias Chaves, entre 1970 e 1979, enfrentar a crise. Durante este provincialado deu-se início a uma reorganização missionária e administrativa. A formação vicentina nos seminários diocesanos chegou ao seu término. E os seminários da própria Congregação, organizados e mantidos com uma linha teológica e pedagógica pré-conciliar, tiveram que mudar. Foram fechados os históricos seminários do Caraça e de Petrópolis, iniciando-se o de Aparecida, em 1969. O Seminário Interno passou a ser organizado de forma integrada à Filosofia e Teologia (1972-1986), com pequeno grupo de seminaristas. O Teologado voltou a Petrópolis (1971-1980).

 

Da mesma forma, o trabalho dos vicentinos na educação foi reorganizado, assumindo uma linha pedagógica segundo as propostas da Conferência de Medellín (1968).

 

As tradicionais missões populares foram substituídas por novas modalidades de pastoral: um grupo de vicentinos assumia uma região ou paróquia de periferia, por três ou quatro anos, com o objetivo de organizar comunidades, de formar lideranças leigas e de animar ou renovar os grupos pastorais.

 

Apesar desta mudança de rota na ação missionária, os vicentinos não conseguiram responder aos desafios pastorais pós-conciliares. A partir de 1980, com o número de religiosos em declínio, a Congregação desencadeou um processo de revisão de obras, não sem tensões internas e, até mesmo, equívocos. A busca pela atualização do carisma fundacional da Congregação foi a marca distintiva desse processo de renovação; cresceu a consciência da evangelização prioritária dos mais pobres. As paróquias foram revisadas segundo este critério fundamental. Muitas foram entregues aos bispos; novas, mais conforme a esta opção preferencial, foram sendo assumidas.

 

 

A presença dos padres e irmãos lazaristas nas paróquias urbanas e rurais de periferia evoluiu para períodos de longa duração, assumindo uma linha pastoral segundo a Teologia de Libertação. O Caraça também adequou-se a uma nova orientação, como centro de peregrinação, turismo e cultura. E, em 1995, tornou-se Reserva Particular do Patrimônio Natural. A pastoral vocacional, mesmo com índices baixos de adesão, continuou em Aparecida (que funcionou até 1976) com um novo programa de formação. O mesmo aconteceu com algumas escolas apostólicas vicentinas. A comunidade dos seminaristas de filosofia estabeleceu-se em Belo Horizonte (a partir de 1977).

 

No conjunto, as mudanças impostas pelas novas realidades eclesiais impulsionaram a Província Brasileira da Congregação da Missão a uma profunda revisão das suas atividades pastorais. Por outro lado, pari passu a todo este movimento estava o entrave de muitos padres e irmãos que não conseguiram entrar no processo de renovação conciliar e na sua consequente resistência contrária às mudanças que aconteciam. Tudo isso provocou desacertos e desencontros, decisões equivocadas, problemas de toda natureza e conflitos, situações humilhantes, injustiças e limitações pessoais e comunitárias ou conjunturais.

 

No entanto, os novos problemas socioculturais, as novas concepções filosófico-teológicas descortinaram novos horizontes pastorais, obrigando a Província da Congregação da Missão a repensar o seu modo de ser e o seu futuro na busca de uma nova práxis missionária. Na verdade, os lazaristas no Brasil tiveram dificuldade para compreender, discernir e assimilar a nova conjuntura eclesial pós-conciliar. Neste sentido, a crise pós-Vaticano II foi e continua, em certa medida, sendo um complexo processo de desconstrução de uma identidade histórica, que perdeu a sua razão de ser na sociedade e na Igreja em constante transformação.

 

Mas crise é sempre sinônimo de oportunidades. E a crise identitária da Província Brasileira da Congregação da Missão logo transformou-se numa busca de fidelidade criativa face às interpelações dos tempos atuais. Este é o tema tratado pelo autor no sexto e último capítulo do livro.

 

 

Os lazaristas iniciaram o novo milênio com apenas 91 missionários com votos perpétuos, com uma nova configuração missionária e desafiados a continuarem o processo de renovação e construção de uma nova identidade histórica. A ênfase do trabalho missionário recaiu sobre o serviço aos mais pobres. Os trabalhos em muitas paróquias foram encerrados para serem assumidas novas frentes missionárias nas periferias urbanas e rurais. Os lazaristas se abriram às missões ad gentes, enviando missionários para África (Moçambique) e para a Amazônia brasileira. Intensificou-se a colaboração com a Família Vicentina e com as Províncias de Curitiba e Fortaleza.

 

A formação do clero e os serviços em seminários foram reduzidos a trabalhos específicos e pontuais. Por outro lado, abriu-se a oportunidade da formação dos leigos através de retiros, cursos e serviços de assessoria, sobretudo junto aos conselhos e conferências vicentinas da Sociedade de São Vicente Paulo e junto aos Missionários Leigos Vicentinos.

 

Hoje, a Congregação conta com 58 missionários com votos perpétuos e dez missionários em formação, e está presente com várias obras no Rio de JaneiroCaraçaBelo Horizonte e Tefé. Herdeira de uma tradição histórica a ser conservada na memória, os Padres e Irmãos da Província Brasileira têm consciência dos novos tempos com a complexidade dos desafios, problemas e oportunidades que vão ao encontro. Mas, sobretudo, têm consciência que são chamados à construção de uma nova história que exige constante esforço de discernimento apostólico e de acolhida das interpelações da realidade, especialmente dos mais desfavorecidos, para reatualizar e revitalizar a sua identidade missionária. Vive a busca de uma espiritualidade mobilizadora, que gera e integra a maturidade humana e a vida espiritual, a partir de uma práxis missionária de permanente estado de missão e caridade, tendo os pobres ao centro da ação pastoral, e promovendo uma evangelização integral e transformadora, principalmente nos espaços de maior carência econômica, social, cultural e pastoral.

 

O livro fecha-se com os flashes de alguns acontecimentos, observações e particularidades da história dos lazaristas no Brasil. Uma espécie de anedotário histórico da Congregação, repleto de simpáticas efemeridades, “flashes de memórias”, e com a galeria dos missionários, elencando alguns nomes dos lazaristas que ilustram a história da Província no Brasil.

 

O posfácio é de autoria do P. Geraldo Eustáquio Mól Santos, C.M. Com linguagem coloquial, faz um balanço bem atual da Província do Brasil da Congregação da Missão nos dias atuais. Acompanha uma pequena bibliografia sobre a história da Congregação da Missão no Brasil. Muito útil para todos aqueles que desejarem adentrar um pouco mais nesta rica e controvertida história dos missionários.

 

 

A leitura captura o leitor numa narrativa em que, página após página, os fatos descritos fazem aflorar emoções, sorrisos, reflexões, perguntas e informações que fazem da memória dos episódios descritos um trampolim para uma empreitada missionária ainda por ser completada e que não esconde incertezas e desafios a serem superados.

 

Destaque especial merece ser dado ao riquíssimo acervo fotográfico que ilustra o volume. As fotografias não são apenas ilustrativas, nem estão colocadas por acaso, como se poderia esperar de uma obra comemorativa; o acervo constitui uma outra forma de memória que pede uma narrativa acerca das pessoas e de suas atividades.

 

O volume é a prova de que, com a pena de um autor comprometido em buscar narrar e explicar uma memória histórica de uma congregação num período temporal bem definido, é possível fazer uma narrativa, ao mesmo tempo que acessível, historicamente crítica, além de oferecer uma leitura agradável.

 

Sem dúvida, é um volume que, guardadas as intenções originais (de comemorar e divulgar os 200 anos de presença missionária no Brasil), introduz o leitor na história de uma congregação religiosa missionária que contribuiu e continua a contribuir para a história das instituições religiosas no Brasil.

 

Notas: 

[1] Eli Chaves dos Santos, C.M. Nasceu a 04 de outubro de 1953. Entrou na Congregação (na Província do Rio de Janeiro) a 1º. de julho de 1972 e foi ordenado padre no dia 08 de dezembro de 1979. Exerceu os ministérios de Padre Formador, Pároco, Conselheiro Provincial e Visitador por três mandatos. Quando foi eleito, prestava serviços à Missão na Vice-Província de Moçambique, onde exercia também o ofício de Diretor Provincial das Filhas da Caridade. Atualmente é formador na etapa da teologia. 

[2] Historiador e autor de diversas obras sofre a Igreja Católica no Brasil. Atualmente é professor titular do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora.


Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/601724-congregacao-da-missao-200-anos-no-brasil

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

I ENCONTRO ONLINE DE ESTUDANTES VICENTINOS DA CM NO BRASIL


Estudantes das Províncias da Congregação da Missão de Brasil (19 – CMPS, 15 - PFCM e 17 – PBCM) se reuniram em 04/07/2020, à 15h, pelo aplicativo Zoom, para o I Encontro On-line de Estudantes Vicentinos da CM no Brasil, com o tema: “Conectar, conhecer e crescer em comunidade”.

Além de visar a aproximação, fraternidade e conhecimento mútuo, o encontro tece como objetivo rezar pelo fim da pandemia, pelo fortalecimento do ENEV (Encontro Nacional de Estudantes Vicentinos) e pela fidelidade à Vocação Vicentina.

Foram quase duas horas de encontro que no se viu o tempo passar. Para começar, o moderador, Cleber Teodósio, estudante de teologia da Província Brasileira da Congregação da Missão (PBCM), deu as boas-vindas a todos os presentes, explicitando o objetivo e programa do evento.   

A oração inicial ficou na responsabilidade da Província de Fortaleza da Congregação da Missão (PFCM), e foi conduzida pelo seminarista interno, Samuel Menezes, com a ajuda de outros estudantes. Em seguida, Ramon Aurélio e Michel Araújo compartiram um antigo, mas bem atual mensagem enviada, pela Cúria Geral, aos estudantes que os convida a:

  • manter-se firmes em seu amor para com os empobrecidos;
  • dizer aos pobres que Deus os ama;
  • criar projetos a ser desenvolvidos interprovincialmente;
  • viver “como amigos que se querem bem”;
  • refletir sobre a adesão segura ao Voto de Estabilidade;
  • trabalhar como Família Vicentina em projetos como a Mudança de Estruturas, e
  • olhar os pobres excluídos e marginalizados como seguidor de Jesus Cristo e de São Vicente de Paúl, comprometer-se com eles, custe o que custar, até a morte, se for necessário.  

Logo, viu-se uma saudação do Superior Geral Pe. Tomaz Mavric, (ver video abaixo) que disse alegrar-se com o evento e que se unia aos estudantes no objetivo pensado para o encontro. Pe. Mavric concluiu sua saudação com uma bênção, desejando que os estudantes, com a ajuda de Deus, de Nossa Senhora e dos Beatos e Santos Vicentinos, mantenham-se firmes na resposta do chamado, crescendo em unidade e alegres na missão de seguir Jesus Cristo, evangelizador e servidor dos pobres.


Todos os presentes na sala virtual fizeram sua apresentação pessoal. Logo Mateus Oliveira, estudante de filosofia da Congregação da Missão Província do Sul (CMPS) tocou e cantou a música vocacional: “Por uma grande missão”, de Dom Pedro Guimarães. Em seguida, foi apresentado pelos estudantes: Icsom Rodrigo (CMPS), Raimundo Silva e Willam Medeiros (PFCM) e Leonardo Almeida (PBCM), como cada Província está caminhando no processo formativo, nesse “Novo Normal”. Foi animador saber que em todas elas, estudantes e formadores estão, mesmo com as limitações próprias desse tempo, as ocupações com os estudos e a dinâmica da vida em comunidade, continuam indo aos pobres e desenvolvendo de assistência social junto aos mais necessitados.   

O encontro foi encerrado com uma oração final conduzida por Celso Nascimento, estudante de filosofia da CMPS. 

Também participaram do encontro os formadores Pe. Denilsom Matias, CM, que atualmente é responsável de acompanhar o ENEV (Encontro Nacional de Estudantes Vicentinos) e Pe. Joelcio Saibot, CM. Assim como, estudantes da província APU (Argentina-Paraguai-Uruguai) e Vice Província de Moçambique que estudam na PBCM, no seminário interno internacional e na teologia, respectivamente.    

El encontro foi bem aceito pelos estudantes e formadores, que fizeram todo o possível, para que esse acontecesse da melhor forma. A equipe do EREV (Encontro Regional de Estudantes Vicentinos) da PBCM, que coordenou esse encontro, agradeceu a todos (estudantes e formadores) pela partilha e ao Colégio São Vicente de Rio de Janeiro, por colaborar com sua conta no sistema Zoom para o evento.  

Fonte: https://www.pbcm.org.br/noticia/encontro-on-line-de-estudantes-vicentinos-do-brasil-06082020-115259


sexta-feira, 31 de julho de 2020

ESTÁGIO MISSIONÁRIO, CARAÇA 2020



Estudantes e Formadores da Congregação da Missão residentes em Belo Horizonte participaram de 06 a 27 de julho de 2020 no Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, no Caraça, de um Estágio Missionário. Neste ano, o estágio se deu em uma obra apenas da PBCM, devido ao isolamento social condicionado pela pandemia causada pelo novo coronavírus.  

No período do Estágio a liturgia da Igreja rezava o discurso de Jesus sobre a missão (Mt 10). De modo que a palavra e ação do Filho tornaram-se fonte da palavra e ação dos estudantes e formadores que se colocaram no seguimento do Mestre no Santuário e Curato Nossa Senhora das Graças. O que Jesus disse e fez, os discípulos missionários do Filho Amado enviado pelo Pai, procuram dizer e fazer, na força do Espírito do Ressuscitado, especialmente, nesse período.

As atividades específicas do estágio estiveram organizadas em três frentes:
1. Estudos pessoais, relacionados a leituras de conteúdos da faculdade e da dimensão humana, e estudos comunitários sobre cultura vocacional, onde em equipes, pensou-se em um plano estratégico para pastoral vocacional da PBCM.  

2. Pastoral no Santuário e no Curato Nossa Senhora das Graças. A missão litúrgico/pastoral deu-se, especialmente de forma virtual, excetuando dois momentos no Curato para as festas de São Bento e Santana e em missas diárias no Santuário. 

3. Trabalho de manutenção no Complexo do Santuário do Caraça compreendendo a limpeza das placas, jardins e hortas; pinturas de bancos e calvário; reparação de avarias e limpezas nos objetos sacros da sacristia, peças do museu e livros da biblioteca.

No ritmo do coração, Marcos Ferreira, que ficou na equipe do jardim, escreveu uma “crônica” de agradecimento, no estilo de carta, dirigida aos coirmãos que estiveram envolvidos nessa missão, desde os que ali residem até os que estiveram de estágio missionário. Ver a seguir o texto na integra:


Catas Altas, 24 de julho de 2020 

Amados Irmãos, Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

“Todo jardim começa com um sonho de amor. Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles…”(Rubem Alves)[1].  

A coerência entre a vida de oração e ação é um testemunho agradável a Deus. Vida de entrega de quem “Ora et labora” (Ora e trabalha). Foi essa bela realidade que experienciamos aqui no Santuário do Caraça. 
Sei que o estágio ainda não se concluiu, mas antecipadamente quero expressar: Gratidão!
Amados Irmãos de caminhada, como é normal para todos que estão iniciando o processo de formação o desejo de aproveitar o período de férias para estar com a família, confesso, queria ir a Angelim – PE, visitar os meus familiares, porém, com a pandemia o Caraça se tornou uma alternativa... Só não sabia que seria tão especial. Sim, é por isso que desejo agradecer a Deus pela oportunidade de conviver com vocês durante esses dias e pedir que Ele vos recompense infinitamente. Foi uma benção conhecer mais e conviver... rezar, fazer as refeições e trabalhar juntos foi uma honra. Foi um presente!
Nós sabemos que nos dias atuais está cada vez mais difícil viver a mensagem de Jesus Cristo, seguido de perto o nosso Pai fundador. É um desafio para nós, jovens, perseverar na caminhada; somos de países (Argentina, Brasil, Moçambique e Paraguai) de regiões distintas, com culturas diversas, costumes diferentes... viver e conviver em uma comunidade tendo como Modelo a Santíssima Trindade é um convite a doação e entrega completa, a união na diversidade, é um chamado a viver o amor. É um desafio de amor. Superação. Compreensão e perdão. 
Vi, com os meus próprios olhos, ou ouvi, com meus ouvidos, a ação de vocês e o entusiasmo ao se colocar a serviço da maior beleza desse maravilhoso espaço. O Caraça é rico em beleza, silêncio e naturalidade. O zelo e cuidado são sempre bem-vindos. Tenho tanto orgulho de vocês. Meu coração está em festa por fazer parte dessa família. 
Alguns buscam contemplar Deus na natureza, na oração, no silêncio... sabe, eu também, mas o meu lugar predileto de encontro é nos Irmãos. Fiquei realizado por ver coirmãos e colaboradores felizes em fazer suas atividades com gentileza, acolhida, educação, respeito e muito amor. Uma convivência linda de se perceber. O zelo aqui toma conta de tudo. O comportamento das pessoas do lugar coloca em evidência sua intimidade com Deus traduzida na prática.  
Esse lugar é especial. Permitam-me partilhar algo sob o meu trabalho nesse momento. Fui muito feliz em trabalhar no jardim. Confesso que não tinha as habilidades necessárias para aquele ofício e por isso me perguntava: Senhor, o que desejas me ensinar no jardim? Primeiro, que a humanidade é um jardim; segundo, que o ser humano é especial e requer muito cuidado, paciência e amor, e terceiro, que Ele (Deus) é o Jardineiro. 
No início machuquei muitas plantinhas, mas depois entendi que eu não precisava ser perfeito, apenas ter muito cuidado, não precisa ter pressa. Não seremos nós apressurados em nossa missão? Aprendi que Deus queria que eu aprendesse a não desistir das pessoas e dar mais uma chance, ou quantas for preciso ou necessário... O bom jardineiro sabe a importância e valor sem comparação de cada planta. Por isso poda, não arranca e joga fora. Precisei, com minha falta de habilidade, replantar muitas... Não seremos nós, displicentes em nossos relacionamentos e compromissos? Não devemos desistir dos que não nos agrada, dos diferentes, dos outros, quando discordar de nós.
Para finalizar essas palavras quero deixar evidente: O nosso mundo seria menos belo sem vocês. Gratidão. 
E quando vier a desanimação por fazer pouco e coisa tão pequenas, lembremos: “O que eu faço é uma gota no meio de um oceano. Mas sem ela, o oceano será menor”[2]. “Deus juntou todas as águas e fez o mar. Deus juntou todas as graças e fez Maria”. Sim, peço que a Mãe de Jesus e nossa faça vir sobre vocês uma chuva de infinitas graças. Gratidão sem limitações.

Abraço Fraterno,
Marcos Ferreira da Silva
Obs.: Caso o texto tenha ficado sem coerência, peço perdão, pois foi no ritmo do coração.


[1] Rubem Azevedo Alves foi um psicanalista, educador, teólogo, escritor e pastor presbiteriano brasileiro. Foi autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis.
[2] Madre Teresa de Calcutá 




domingo, 19 de julho de 2020


"Na vida real, no entanto, você não reage ao que alguém fez; você reage apenas ao que acha que ela fez, e a lacuna entre ação e percepção é preenchida pela arte do gerenciamento de impressões. Se a própria vida é apenas o que você considera, então por que não concentrar seus esforços em convencer os outros a acreditar que você é um cooperador virtuoso e confiável?"

Andrea Wilson

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Magnificat: a Espiritualidade Mariana em saída



MAGNIFICAT (Lc 1,45-55)


46 Então Maria disse:
 «Minha alma proclama a grandeza do Senhor,
47 meu espírito se alegra em Deus, meu salvador,
48 porque olhou para a humilhação
de sua serva.
Doravante todas as gerações me felicitarão,
49 porque o Todo-poderoso realizou grandes obras em meu favor:
seu nome é santo,
50 e sua misericórdia chega aos que o temem,
de geração em geração.
51 Ele realiza proezas com seu braço:
dispersa os soberbos de coração,
52 derruba do trono os poderosos e eleva os humildes;
53 aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias.
54 Socorre Israel, seu servo,
lembrando-se de sua misericórdia,
55 - conforme prometera aos nossos pais -
em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre.»


*****
WEBINAR DA JMV BRASIL
Evento: Semana da Aparição: JMV 190 anos

Tema: “Magnificat: a espiritualidade mariana em saída”
Convidados: Cleber Teodósio, CM e Ir. Adenilde Marcedo, FC
Moderador: Rafael Cruz, FC
Data: 14 de julho de 2020
Horário: 20h
Local: Yotube.com/TheJMVBrasil (Via Zoom)

APANHADO GERAL DA FALA

A Espiritualidade Mariana
Espiritualidade é experiência de Deus, é o ser-humano-com-espírito. De modo que ao refletir sobre a espiritualidade de Maria, ou seja, o modo como Ela se relacionou com Deus, eu fico com a sua entrega, seu despojamento, a forma pela qual ela colocou-se a disposição para fazer, em tudo, a Vontade de Deus, o que a tornou a primeira Discípula e Missionária de Jesus. Creio que ai está o sumo da sua espiritualidade. Mas do que ser a “Mãe de Deus” (Theotokos), a “Escolhida”, a “Bendita entre as mulheres” ela foi discípula/missionária de Jesus, algo que também nos convida ser!     
E como vicentinos, vale lembrar aqui, as três imagens da Espiritualidade Mariana cultivadas por São Vicente de Paulo. Segundo Dodin, a referência a Maria, faz-se constante em suas meditações:
1) A Imaculada Conceição: Mistério intimamente relacionado com a sua perfeição, suas virtude de pureza e humildade;
2) Anunciação e a Encarnação: Mistério que São Vicente descreve com amorosa admiração e relaciona com a humildade, a comunhão e as orações Ave Maria e Ângelus;
3) Visitação: Parâmetro para todo cristão batizado. Nela o Magnificat (que é tema que estamos discutindo, hoje) revela o atrativo da humildade aos olhos de Deus.

A vivência de Espiritualidade Mariana pela JMV no mundo Maria, Jesus e os demais santos da história do cristianismo que conhecemos são o que são em todos os lugares, porém é verdade que esses são representados de formas distintas, inculturadas, pois a noção de belo, galante ou sublime para nós da JMV Brasil é diferente da mesma noção que têm os jovens de cultura europeia (ainda que também ocidental), africana ou oriental.
Maria, na visão do Pe. Robert Maloney, ex Superior Geral da Congregação da Missão, no artigo: Cinco Rostos de Maria, é “depois de Jesus, o personagem bíblico com mais influência sociocultural em nossos dias”. E conforme a Lumen Gentium, Maria é a melhor e mais perfeita imagem da Igreja. (LG, 8), e como bem sabemos, a Igreja é unidade, mas na diversidade.
De modo que, por exemplo, a JMV da África, ainda que muito influenciada pelos missionários europeus, ver e vive sua Espiritualidade Mariana a partir de uma imagem negra, espelhada na figura da mãe que, mesmo com as limitações do dia a dia, luta com todas as suas forças, para oferecer o que tem de melhor a seus filhos.
A JMV ameríndia, mesmo venerando Nossa Senhora das Graças, identifica Maria como a Moreninha, Virgem de Guadalupe, Caacupé ou Aparecida. Senhoras encarnadas na vida e história dos povos.
Também na Europa, a visão que a JMV tem de Nossa Senhora não é tão homogênea. Sabemos que o rosto marcante de Maria na história da JMV do “Velho Continente” é a Virgem da Medalha Milagrosa, cuja imagem primeira encontra-se na Capela da Casa Mãe das Filhas da Caridade em Paris, França, porém a JMV Portugal tem uma grande devoção a Nossa Senhora de Fátima, a JMV Polônia, à Virgem do Monte Claro (Matka Boska Częstochowska), na JMV Espanha há uma região que venera a Virgem do Pilar, e assim por diante.
Todas essas devoções são fruto das experiências dos povos que se deixam mostrar, e é imitando, ou melhor, seguindo o que essas expressões religiosas ensinam, que a JMV, desses países, vão vivendo sua Espiritualidade Mariana, e por ela sua relação com Deus, pois como sabemos Maria nunca foi e nunca quis ser o fim, mas o meio pelo qual chegamos a Deus, Ela não quer nada para si, mas para seu Filho, por isso tudo que dirigimos a Ela, Ela reporta a Deus por meio de Jesus Cristo.
O Magnificat e a atualidade
O cântico de Maria ressoa citações ou evocações vétero-testamentárias, especialmente em relação ao Cântico de Ana, pronunciado por ocasião do nascimento do filho Samuel (1Sm 2,1-10) e este é o pano de fundo do Magnificat.
Lucas, ao escrever ao “Teófilo” coloca esse cântico, com as devidas adequações, nos lábios de Maria. O Magnificat foi no tempo de Jesus: louvor, ação de graças, elevação dos humildes, crítica ao orgulho da riqueza que impede o acesso ao Reino, convite à humildade, abertura ao pobre, reconhecimento da grandiosidade, misericórdia e amor de Deus pela humanidade.
Toda essa mensagem continua pujante em nossos dias. Também hoje, ao nosso modo, o Magnificat pode e deve ser um hino cantando por cada um de nós, não só com palavras, mas com a vida.
Outra coisa que não podemos deixar passar despercebido é o contexto no qual Maria cantou o Magnificat. Momentos antes, o Anjo Gabriel tinha anunciado que Ela seria a Mãe do Salvador, e na mesma locução também a comunicou que Isabel, sua prima, estava grávida. Maria não se deixa assoberbar com o fato de ter sido escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, Ela pôs-se a caminho e foi servir Isabel. Isso é um exemplo do que, a partir do Documento de Aparecida (574), a Igreja vem chamado de Discípulo/Missionário e o que o pontificado do Papa Francisco chama “Igreja em Saída”. Ou seja, o Magnificat se faz muito atual e necessário como instrumento de reflexão na vida dos cristãos, especialmente, na nossa, Jovens Marianos Vicentinos.  

Ser JMV em tempos de pandemia.
Como dizíamos anteriormente: a dinâmica é não se acomodar e ser “Igreja em saída”, como sugere o Papa Francisco. Colocando-se a escuta, a serviço e a disposição do outro. Seja um jovem que escuta o outro, que se coloca em seu lugar, que está ao lado, que é solidário com dor ou a carência do outro, como Maria foi com Isabel, que necessitava de ajuda.
Sabemos que o tempo é de riscos, mas a vida mesma é correr riscos. A pandemia não pode nos paralisar. O que devemos fazer é, inspirados em São Vicente de Paulo que nos convida a ser inventivos até o infinito, colocar nossa cabeça para funcionar e refletir de que maneira podemos continuar a viver uma evangelização de palavras e de obras, mesmo com os limites que o tempo atual nos obriga.
Uma saída seria:
a) Estar presente junto àqueles que estão mais próximos: os nossos familiares,
b) Telefonar, usar as redes sociais para se comunicar e anunciar boas notícias, bem como, escutar as pessoas de nosso ciclo de amizade ou não, que moram em outras casas;
c) Publicar em nossas redes sociais mensagens positivas que levem a esperança;
d) Não disseminar correntes ou mensagens que espalham o medo ou fakenews.
e) Orar pelos mais pobres, porém não ficar só na oração. Envolver-se em campanhas de arrecadação de alimentos, produtos de higiene e limpeza ou de algum outro item de primeira necessidade a pessoas ou instituições que carecem dos mesmos. Recolher esses produtos e levá-los, com os cuidados necessários (máscara, álcool gel e distanciamento social), a essas pessoas.
Caso o seu grupo de JMV não possa desenvolver sozinho uma campanha nessa envergadura, pode fazer parceira nas campanhas que outros ramos da FV já vêm desenvolvendo. Basta buscar nos demais ramos que encontrará um modo de servir. Elencaremos aqui três opções:
a) Projeto Compartilhando Esperança, dos estudantes da Congregação da Missão Província do Rio de Janeiro, que trabalham com emissão de vídeos semanais, recolhimento de produtos e entrega dos mesmos, aos mais necessitados na grande Belo Horizonte. (Fale Cleber Teodósio: @clefabiooliveira).
b) Projeto Rede de Afeto da SSVP Brasil, que visa acompanhamento psicológico de pessoas vulneráveis em tempo de pandemia. (Fale com Ada Ferreira: @feereiraada).
c) Projetos Sociais da Famvin Internacional. Conheça os diferentes projetos e ajude aquele que lhe chamar mais a atenção. (www.famvin.net).         

Ver a seguir a webinar completa: