segunda-feira, 18 de maio de 2026

Entregar o leme da própria vida a Jesus



Conta-se que um jovem marinheiro enfrentava sua primeira grande tempestade no mar. As ondas eram enormes, o vento sacudia violentamente o barco, e todos estavam desesperados. Enquanto muitos gritavam e corriam de um lado para outro, o rapaz percebeu que o velho capitão permanecia firme segurando o leme. 

Então perguntou: 

— O senhor não está com medo? 

O capitão respondeu serenamente: 

— O mar está agitado, mas o leme continua em minhas mãos. 

Assim também acontece conosco. Muitas vezes nossa vida parece um mar revolto: problemas familiares, enfermidades, crises, perdas e angústias. Porém, quem entrega o leme da própria vida a Jesus não perde a esperança. O mundo pode até trazer tribulações, mas Cristo continua conduzindo a barca de nossa vida. E Aquele que venceu o mundo jamais abandona os que Deus lhe confiou.

Deus não abandona seus filhos



Evangelho: João 16,29-33

No evangelho de hoje, os discípulos dizem a Jesus: “Agora falas claramente… por isso cremos que vieste de Deus”. Eles demonstram segurança, entusiasmo e confiança. Porém, Jesus conhece profundamente o coração humano e responde mostrando que, em breve, eles fugiriam e o deixariam sozinho durante sua paixão. Mesmo assim, Jesus afirma algo extraordinário: “Eu não estou só, porque o Pai está comigo”.

Quantas vezes também nós pensamos que nossa fé é forte, mas diante das dificuldades, do sofrimento, das críticas, das decepções ou das provações da vida, sentimos medo e vontade de desistir. O Senhor conhece nossas fraquezas, mas não deixa de nos amar por causa delas. Jesus não espera discípulos perfeitos; Ele deseja corações sinceros que, mesmo caindo, continuem caminhando confiando na misericórdia de Deus.

Quando Jesus diz: “No mundo tereis tribulações, mas coragem! Eu venci o mundo”, Ele não promete ausência de problemas, mas garante Sua presença em meio às lutas. A vitória de Cristo não aconteceu fugindo da cruz, mas atravessando a cruz com amor e fidelidade ao Pai. Também nós, como Portadores da Misericórdia, somos chamados a levar esperança às pessoas cansadas, feridas e desanimadas, testemunhando que nenhuma dor é maior do que o amor de Deus.

Muitas vezes queremos paz sem luta, vitória sem perseverança e fé sem confiança. Mas Jesus nos ensina que a verdadeira paz nasce da certeza de que Ele caminha conosco. Quem permanece unido a Cristo pode enfrentar tempestades sem perder a esperança.


História para fixar a mensagem

Certa vez, um menino atravessava uma ponte muito alta com seu pai durante uma forte tempestade. O vento balançava a ponte e o menino começou a sentir medo. Então o pai lhe disse:

— Filho, segure minha mão para não cair.

Mas o menino respondeu:

— Não, pai. Segure o senhor a minha mão.

O pai sorriu e perguntou:

— Qual a diferença?

O menino respondeu:

— Se eu segurar sua mão, talvez eu fique com medo e solte. Mas se o senhor segurar a minha, eu tenho certeza de que nunca vai me deixar cair.

Assim é Jesus conosco. Muitas vezes nossa fé vacila, nossas forças acabam e nossas mãos fraquejam. Mas a nossa esperança está no fato de que é Cristo quem segura nossas mãos. E Aquele que venceu o mundo jamais abandona aqueles que Deus os confiou.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado!

domingo, 17 de maio de 2026

Oração para fazer-se um com a Missão do Senhor



Senhor Jesus Cristo, aqui estou, diante de Ti

Tu me conheces, sabe de minhas limitações.

Sou pequeno fraco, quase nada. Mas tu, Senhor me fortalecer.

Tu podes, dá-me ânimo para superar meus limites.

Ensina-me como encontrar-me Contigo, ser mais Teu, ver-Te nos meus irmãos e irmãs.

Quero, preciso dá o melhor de mim. Obrigado por Tua luz, amor e graça.

Fica comigo em meus medos. Precisa os meus passos para que eu não caia.

Obrigado por me acolher, abraçar e me sustentar no meu sim.

Que eu seja Tua testemunha, no aqui e no agora.

Que minhas mãos sejam as Tuas.

Que eu possa responder com mais entrega, entusiasmo e disponibilidade o Teu chamado.

Senhor Deus, permeia-me de Ti.

Permite-me que eu Te leve a todos, que seja canal de Tua graça no mundo.

Pai, ajuda-me ser mais irmão, mais intrínseco na comunidade, motivo de alegria, elo, motivação e coragem em Tua, nossa missão no mundo. 

Amém.

sábado, 16 de maio de 2026

Missão do Japão: 17/05/2026: Ascensão do Senhor. ANO A - Homilia

 


SOLENIDADE DA ASCENSÃO

A Solenidade da Ascensão do Senhor nos convida a levantar os olhos para o céu, mas sem tirar os pés da missão. Jesus sobe ao Pai, mas não abandona a humanidade. Pelo contrário: ao ascender, Ele confia à Igreja a continuidade de sua presença no mundo. A Ascensão não é despedida; é envio. Não é ausência; é uma nova forma de presença.

No Evangelho de hoje, Jesus ressuscitado encontra os discípulos na montanha da Galileia. Alguns ainda duvidavam. E isso é profundamente humano. Mesmo diante da Ressurreição, havia medo, insegurança e fragilidade. Mas Jesus não espera discípulos perfeitos para enviá-los. Ele confia a missão justamente a homens frágeis. E lhes diz: “Ide, fazei discípulos de todos os povos”. A missão nasce da experiência do encontro com Cristo e não da perfeição humana.

A Ascensão revela que Jesus não está limitado a um lugar. Agora Ele pode estar em todos os lugares, em todos os corações, em todas as culturas. Como ouvimos na carta aos Efésios, Cristo está acima de todo poder e autoridade, e tudo foi colocado sob os seus pés. Ele é o Senhor da história. E a Igreja é seu Corpo vivo no mundo.

Na primeira leitura, os anjos dizem aos discípulos: “Por que ficais parados olhando para o céu?”. Essa pergunta ecoa para nós hoje. Há muitos cristãos que olham para o céu esperando milagres, mas esquecem que Jesus os enviou à terra para serem sinais do Reino. A Ascensão nos lembra que a fé não é fuga do mundo, mas compromisso com ele.

E é justamente aqui que a mensagem do Papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais ilumina profundamente esta celebração. Com o tema “Preservar vozes e rostos humanos”, o Papa recorda que o rosto e a voz de cada pessoa são sagrados, porque refletem a imagem de Deus.

Vivemos numa época em que a comunicação cresce de forma impressionante, mas paradoxalmente muitas pessoas se sentem cada vez mais invisíveis, solitárias e descartáveis. Há vozes abafadas pelo ódio, pela polarização, pelas fake news, pela superficialidade e pelo excesso de informações. Há rostos humanos escondidos atrás de telas, algoritmos e aparências.

O Papa alerta que a tecnologia e a inteligência artificial são ferramentas importantes, mas jamais podem substituir aquilo que é mais humano: a escuta, a empatia, a compaixão, a responsabilidade moral e o encontro verdadeiro entre as pessoas. Quando perdemos a capacidade de olhar nos olhos, ouvir com o coração e dialogar com respeito, começamos a desumanizar a comunicação.

E aqui está uma ligação belíssima com a Ascensão: antes de subir ao céu, Jesus envia discípulos para comunicar o Evangelho ao mundo inteiro. Mas Ele não pede apenas transmissão de informações; Ele pede testemunho de vida. O cristão comunica Jesus não apenas com palavras, mas com o modo como acolhe, escuta, perdoa, serve e ama.

A verdadeira comunicação cristã não cria muros; constrói pontes. Não humilha; levanta. Não espalha medo; semeia esperança. Não transforma pessoas em números ou perfis digitais; reconhece em cada rosto a presença do próprio Cristo.

Talvez hoje Jesus também pergunte a nós:
Que tipo de comunicadores estamos sendo dentro de casa, nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, na comunidade e na sociedade?
Nossas palavras aproximam ou ferem?
Nossas postagens evangelizam ou espalham agressividade?
Temos preservado os rostos e as vozes humanas ou colaborado para sua destruição?

A Ascensão do Senhor nos lembra que Jesus voltou ao Pai, mas deixou suas mãos nas nossas mãos, sua voz na nossa voz, seu olhar no nosso olhar. Somos chamados a continuar sua missão no mundo.

E há algo muito bonito: Jesus sobe ao céu levando a nossa humanidade. Isso significa que o céu não está distante da vida humana. Em Cristo, a humanidade entra na glória de Deus. Por isso, toda vez que valorizamos a dignidade humana, defendemos a verdade, promovemos a paz e preservamos o rosto e a voz do irmão, antecipamos um pedaço do céu aqui na terra.

Que nesta Eucaristia peçamos ao Senhor a graça de sermos discípulos missionários da esperança e comunicadores do amor. Que nossas palavras tenham mais verdade, mais ternura e mais Evangelho. E que, num mundo marcado por tantas vozes artificiais, nunca deixemos de reconhecer e preservar aquilo que Deus criou de mais precioso: o rosto humano e a voz humana. Amém.

 

sábado, 9 de maio de 2026

Missão do Japão: 10/05/2026: VI Domingo da Páscoa. ANO A - Homilia



No coração do Evangelho deste 6º Domingo da Páscoa, Jesus nos deixa uma das mais belas promessas: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15). Amar Jesus não é apenas sentir algo por Ele; é transformar esse amor em vida concreta, em escolhas, em atitudes, em fidelidade cotidiana. O amor verdadeiro deixa marcas. E a maior marca do amor a Cristo é viver segundo sua Palavra.


Jesus sabe que os discípulos enfrentarão dificuldades, perseguições e inseguranças. Por isso, Ele promete: “Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Defensor, para que permaneça convosco para sempre: o Espírito da Verdade”. Cristo não abandona os seus. Ele permanece presente por meio do Espírito Santo, que fortalece, consola, ilumina e sustenta a Igreja em todos os tempos.


Na primeira leitura, vemos exatamente isso acontecer. Em Atos dos Apóstolos, Filipe desce à Samaria e anuncia Cristo. O povo acolhe a Palavra, os enfermos são curados, os espíritos malignos são expulsos, e a consequência é clara: “houve grande alegria naquela cidade”. Onde o Evangelho é vivido, nasce alegria verdadeira. O Espírito Santo transforma ambientes, restaura pessoas e reacende esperanças.


Mas é interessante perceber que a fé não ficou apenas na emoção do momento. Os samaritanos acolheram a Palavra e abriram a vida para Deus. A fé tornou-se compromisso. Por isso Pedro e João impõem as mãos sobre eles, e recebem o Espírito Santo. O Evangelho não pode ser apenas ouvido; precisa ser encarnado.


É exatamente isso que São Vicente de Paulo recorda no pensamento proposto hoje. Ele afirma:


“A característica deste amor, o efeito ou sinal deste amor, meus irmãos, é o que diz Nosso Senhor: os que o amam, guardam a sua palavra.”


São Vicente nos ensina que amar Jesus significa amar sua doutrina, seus ensinamentos, seus conselhos e fazer deles um modo de viver. Não basta conhecer a Palavra; é preciso praticá-la e anunciá-la. A Congregação da Missão, dizia Vicente, existe para “levar o mundo à estima e ao amor de Nosso Senhor”.


Que profunda provocação para nós! Quantas vezes ouvimos o Evangelho, rezamos, participamos da missa, mas nossa vida continua igual? Jesus hoje nos pergunta: o Evangelho que você escuta aos domingos aparece nas suas atitudes de segunda-feira? Sua fé transforma o modo como você fala, trabalha, trata a família, vive os relacionamentos e olha para os pobres?

São Pedro, na segunda leitura, nos convida: “Estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança”. O cristão precisa testemunhar a fé não apenas com palavras, mas principalmente com a mansidão, com a coerência e com o amor. Num mundo marcado por tanta violência, egoísmo e indiferença, a maior pregação ainda é uma vida transformada pelo Evangelho.


Os compromissos propostos hoje são muito concretos e profundamente espirituais.


O primeiro: “Assim como Vicente, pergunte-se diante de cada situação da sua vida: qual seria a melhor maneira de agradar a Deus nesse momento?”

Essa pergunta pode mudar nossa vida. Antes de agir impulsivamente, antes de responder com raiva, antes de tomar decisões, deveríamos parar e perguntar: “Senhor, o que mais te agrada agora?” O amor amadurece quando aprendemos a buscar a vontade de Deus acima das nossas emoções e interesses.


O segundo compromisso: “O que posso fazer para viver uma fé ativa?”

Uma fé ativa é aquela que sai do discurso e entra na prática. É a fé que visita um doente, perdoa alguém, ajuda os necessitados, reza em família, educa os filhos no amor de Deus, participa da comunidade e vive a caridade. Fé sem testemunho torna-se apenas teoria religiosa.


E neste domingo, a Igreja no Brasil celebra também o Dia das Mães. Que providencial ouvir hoje Jesus falar do amor que permanece, do cuidado que consola e da presença que nunca abandona. Em muitas mães encontramos um reflexo desse amor de Deus. Quantas mães são presença do Espírito Santo dentro de casa: sustentando a família, consolando nos momentos difíceis, ensinando os valores da fé, rezando silenciosamente pelos filhos e fazendo da própria vida um dom.


Muitas vezes, o primeiro evangelho que uma criança conhece é o colo de sua mãe. O primeiro sinal do amor de Deus é o carinho, o cuidado e o sacrifício materno. Quantas mães evangelizam mais pelo exemplo do que pelas palavras!


Hoje queremos agradecer pelas mães vivas, pedir consolo pelas mães falecidas e rezar também pelas mulheres que carregam no coração o desejo da maternidade, pelas avós, madrinhas e tantas mulheres que exercem maternidade espiritual através do cuidado e do amor.


Que Maria, Mãe da Igreja, ensine todas as mães a serem sinais da ternura de Deus. E que o Espírito Santo prometido por Jesus habite nossas famílias, para que nossos lares sejam lugares de fé, de oração, de perdão e de amor verdadeiro.

Amém.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Um Rio que liga Argentina e Uruguai

Contemplando o Rio da Prata a partir da Colônia Sacramento


Prata, rio localizado entre a Argentina e o Uruguai, é um vasto estuário formado pela união dos rios Paraná e Uruguai, sendo considerado o rio mais largo do mundo. Com cerca de 290-325 km de extensão, serve de fronteira natural, banha Buenos Aires e possui águas marrons, fluindo para o Atlântico. O nome "Río de la Plata" está ligado à busca europeia por prata e influenciou o nome da Argentina (deriva do latim argentum, que significa "prata"). Portanto, não é apenas uma fronteira geográfica, mas também um ponto central para a cultura, economia e lazer da região platina. Foi ao redor desse rio que vivemos experiências inesquecíveis em março de 2026.

Diác. Manuel, CM rende homenagem à Virgem Milagrosa


Num passado não muito distante, conheci pelas redes sociais, Manuel Gradin, estudante vicentino da Argentina, e, em 2022, ele veio fazer seu Seminário Interno em Belo Horizonte – MG, fazendo pastoral em nossa Paróquia Pai Misericordioso, quem de algum modo acompanhei, por também servir, como padre, na Paróquia. 

O noivo e os convidados


No início de 2026, recebemos o grato convite para participar de sua ordenação diaconal. Alguns paroquianos, das comunidades onde ele fez pastoral, mostraram-se interessados em participar. Afinal, fomos três paroquianas: Fátima, Imaculada e Ednalva, e eu. Chegando na Argentina, pelo Aeroparque Jorge Newbery, partimos para Belén de Escobar, região metropolitana de Buenos Aires, na tarde de 06 de março, onde fomos recepcionados pelo ordenando e seu amigo, brasileiro, o estudante vicentino, Icson Gentek. Tivemos a tarde livre e, à noite, fomos à missa na capela de Nossa Senhora das Graças, junto ao Colégio São Vicente de Paulo, onde vivem Manuel e mais dois padres companheiros: Miguel Palau e Juan Gatti.

Altar lateral da Virgem em Luján, cuja festa 08 de maio.


No sábado, dia 07, aproveitamos a manhã para visitar Luján. Fomos em dois Ubers; por pouco, não chegamos a tempo de concelebrar a missa das 11h. Justo quando os padres estavam na procissão de entrada, uni-me a eles, graças ao meio de campo feito por Jonatan, amigo que havia conhecido dias antes, quando servi como tradutor em uma das reuniões do CIEV (Consórcio de Instituições Educacionais Vicentinos). Jonatan, muito obrigado! A Basílica Menor de Nossa Senhora de Luján é dedicada à Nossa Senhora de mesmo nome, padroeira da Argentina, e faz parte da Arquidiocese de Mercedes-Luján, cuja sede fica na Catedral Basílica de Mercedes-Luján, na cidade vizinha de Mercedes. Construída em estilo neogótico entre 1890 e 1935, a basílica já foi visitada por diversas autoridades, incluindo o Papa São João Paulo II e líderes argentinos de alto escalão. A basílica é fundamental para a peregrinação a Nossa Senhora de Luján, uma celebração anual com quase 150 anos de tradição, que atrai milhares de peregrinos em seus anos de maior movimento. A presença da Congregação da Missão em Luján é significativa. Talvez a figura mais ilustre seja o servo de Deus, padre Jorge María Salvaire, CM, que em 6 de maio de 1890, iniciou a construção do edifício com o formato que existe até hoje, bem como o exímio organizador de peregrinações.

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Painel do Servo de Deus, Pe. Jorge Salvarie, CM em exposição permanente na Basílica de Luján


Sim, a Congregação da Missão esteve responsável pela pastoral da Basílica de Luján de 1872 até o ano de 2001. Em 28 de fevereiro de 1872, o pároco, Pe. Eugenio Freret e três coirmãos franceses assumiram a custódia do Santuário. Os Vicentinos foram fundamentais na construção do templo e na difusão do culto à Virgem de Luján. Além da assistência litúrgica, fundaram escolas, lares e obras de solidariedade na região, com foco na evangelização dos pobres. Em 2001, após quase 130 anos, a gestão pastoral da Basílica de Luján passou para as mãos dos padres diocesanos. Luján se despediu dos Missionários Vicentinos em uma aglomerada missa em 11 de novembro, às 20 horas, reunindo uma multidão de fiéis que choravam a despedida dos Construtores e Guardiões do Santuário. Em dezembro daquele mesmo ano, a comissão organizadora daquela despedida, já com os ânimos acalmados, publicou uma carta para expressar as “manifestações públicas de gratidão, veneração e admiração” a todos aqueles que participaram “desse gesto tão nobre e espiritual”, acrescentando ainda: “A humildade do subsolo da Basílica, transformado em cripta de expressão multifacetada da devoção mariana, é um símbolo dos 128 padres e irmãos vicentinos que atuaram temporária, reiterada ou permanentemente no Santuário. Poucos têm placas comemorativas, mas todos foram chamados a estar inscritos no Livro da Vida. A difusão da Palavra de Deus, a celebração diária da memória da Paixão e morte de Cristo, a santificação pelos sacramentos do batismo, da eucaristia e da reconciliação de milhões de cristãos de todas as classes sociais..., tudo isso, somado à ação solidária e caritativa que, por meio de organismos especializados..., se expandiu até mesmo às dioceses mais remotas da República... Havia motivos para essas manifestações de gratidão, e vocês, assim como nós, sentiram o impacto dessa saída dos Padres Vicentinos”. Também um artigo, escrito por ocasião da partida da CM de Luján por um membro de outra congregação religiosa, começava assim: “Atrás deles e para sempre, permanece de pé aquela bela Basílica mariana, sentinela da fé e testemunha do trabalho incansável desta comunidade missionária, que, pedra a pedra, pedido após pedido, ofereceu à Virgem Gaúcha sua bela casa. Os vicentinos viveram evangelizando Luján e sua zona de influência durante quase 130 anos (1872-2001). Os anos deixam marcas e tecem amizades no coração de uma paróquia que hoje vê partir esses guardiões do santuário com dor, mas com muita gratidão”. (SARASOLA, Ventura. Santuario de Nuestra Señora de Luján - Argentina. In Vincentiana, Vol. 47, No. 5-6 Art. 59, 2003).

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Alguns Coirmãos presentes na ordenação


A noite de sábado foi especial, pois nos reunimos na Capela do Colégio em Escobar para a missa de ordenação de Manuel e recepção. Estiveram presentes muitos coirmãos da Província APU (Argentina, Uruguai e Paraguai), amigos e familiares do neodiácono. Foi um momento de festa, fraternidade e celebração, em que pudemos conhecer presencialmente muitos que só tínhamos contatos virtuais e rever pessoas queridas como Angelina, German e Jorge.

Obelisco no centro de Buenos Aires


No domingo, dia 08, fomos a Buenos Aires, visitamos o centro histórico da cidade: Obelisco, erguido em comemoração ao quarto centenário da fundação da cidade; Catedral Metropolitana de Buenos Aires, dedicada à Santíssima Trindade e que nos trouxe à memória o saudoso Papa Francisco; e Casa Rosada, localizada em frente à Praça de Maio, a sede do Poder Executivo da Argentina; logo almoçamos na casa provincial. Ali conhecemos o Pe. Daniel Boglioto, CM, que falava português por ter feito missão em Moçambique, bem como estivemos com outros padres e visitantes, entre eles, o Pe. Daniel Rosales, CM, Visitador Provincial. Os coirmãos foram muito solícitos e prepararam uma tradicional carne argentina para nós, visitantes. À tarde, retornamos a Escobar, onde tivemos missa acolitada pelo neodiácono, missa essa que não pude concelebrar, pois me haviam pedido para atendendo confissões. Em seguida, saímos a jantar com Diác. Manuel e Victória numa churrascaria próxima a Escobar. 

Pe. Carlos, CM nos mostra o Santuário da Milagrosa em Buenos Aires


Já era segunda-feira, 09 de março, e uma das nossas companheiras de viagem, Ednalva, tinha que voltar ao Brasil. Assim que partimos de Escobar para Buenos Aires, encontramos Antônio Medrano e almoçamos com o Pe. Carlos González e os demais coirmãos que residem no Santuário La Milagrosa, que igualmente foram muito amáveis e acolhedores, preparando uma massa deliciosa para nós. Deixamos Ednalva no aeroporto e aproveitamos o restante do dia no centro da capital.

Pe. Miguel, CM nos acolhe em Uruguai


Na manhã do dia seguinte, 10 de março, Imaculada, Fátima e eu cruzamos o Prata rumo a Montevidéu. O ideal seria ir de barco, mas alguns de nós temiam a água. Chegando no Uruguai, fomos acolhidos, ainda no Aeroporto Internacional de Carrasco, pelo Pe. Miguel Paez, que nos conduziu até a comunidade do Santuário da Medalha Milagrosa e Santo Agostinho. Ali nos esperavam Pe. Héctor Oviedo e o estudante Maykol Cortes. Na manhã do mesmo dia, caminhamos pelo bairro La Unión, onde fica o Santuário, e, à tarde, fomos ao Centro Histórico de Montevidéu e visitamos o Museu da Casa do Governo, a Catedral Basílica da Imaculada Conceição, São Felipe e São Tiago de Montevidéu e o Teatro Solis.

Pe. Hector, CM nos acolhe na Comunidade de Montevideu


No dia seguinte, 11 de março, o Pe. Miguel nos levou a conhecer Colônia do Sacramento, uma cidade histórica no Uruguai, reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, fundada em 1680 por portugueses. Ela é famosa pelo seu centro histórico com arquitetura luso-espanhola e ruas de pedra, fica às margens do Rio da Prata, oferecendo um charmoso refúgio com ótimos restaurantes, vinhos e um belo pôr do sol. Vale salientar que a cidade abriga o Museu Português e o Museu Espanhol, evidenciando a história de disputas territoriais. Conta-se, que alguns anos após o Descobrimento do Brasil, uma expedição portuguesa comandada por Martim Afonso de Sousa chegou com suas caravelas até o estuário do Rio da Prata, com a missão de colocar marcos de posse portuguesa na margem esquerda da foz daquele rio, tendo, entretanto, sido incapaz de completá-la em razão do naufrágio de sua embarcação. A vila é maravilhosa; visitamos a Basílica do Santíssimo Sacramento, o cais e o farol. Almoçamos na Colônia e compramos lembrancinhas e alfajores antes de retornar a Montevidéu.

Sem. Maykol, CM nos guia pelo bairro União


No dia 12 de março, aproveitamos para descansar; ficamos todo o dia em casa, as meninas fizeram quitutes e eu maratonei uma série brasileira em pleno Uruguai, “Dona Beja”. À tarde retornamos a Buenos Aires. Esperava-nos, no Aeroparque, o confrade Sebastian Gramajo, que nos ofereceu um jantar e, como bom xeneize, nos levou para conhecer La Bombonera, estádio do Boca Juniors. Sebastian coroou nossa estada fazendo-se um conosco, mostrando-se próximo e especialmente solícito. Deus o retribua por tamanha generosidade.

Cde. Sebastián nos guia por Buenos Aires


Na manhã da sexta-feira, dia 13 de março, partimos de Buenos Aires, Argentina, para Belo Horizonte, Brasil. Esta viagem à Argentina foi espetacular; diferente da última vez, não tive imprevistos desagradáveis, estive por mais tempo, escutei o povo sobre a realidade do país, especialmente os motoristas de Uber. Os coirmãos foram um rio, não de prata, mas de ouro, o ouro da fraternidade, da acolhida e do cuidado. A todos, nominamos ou não, o nosso muito obrigado. Que a caridade e a missão, aprendidas de Jesus, a modelo vicentino, continuem fazendo-nos um. Que Deus os abençoe e sigam sob a poderosa proteção da Virgem Milagrosa! Amém. 🤗🚗✈️

Obrigado, Manu, pelo convite




Gracias por todo. Dios los bendiga a todos. 

sábado, 2 de maio de 2026

Missão do Japão: 03/05/2026: V Domingo da Páscoa. ANO A Homilia

 


Queridos irmãos e irmãs,

 

neste 5º Domingo da Páscoa, a Palavra de Deus nos conduz a um caminho profundamente consolador, mas também exigente. No Evangelho (Jo 14,1-12), Jesus Cristo nos diz: “Não se perturbe o vosso coração”. Ele conhece nossas inquietações, nossos medos, nossas inseguranças — e responde não com teorias, mas com a sua própria pessoa: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

Não é apenas um ensinamento; é um convite. Jesus não mostra um caminho… Ele é o Caminho.

 

1. Um coração que confia em meio às dificuldades

A primeira leitura (At 6,1-7) mostra que, desde o início, a Igreja enfrentava conflitos e desafios. Havia divisões, reclamações, tensões. E o que fazem os apóstolos? Não entram em desespero. Eles organizam, discernem e, sobretudo, mantêm o essencial: a oração e o serviço da Palavra.

 

Isso nos ensina algo muito concreto:
a fé não elimina os problemas, mas nos dá um modo diferente de enfrentá-los.

 

Quantas vezes também nós ficamos perturbados diante das dificuldades familiares, financeiras, pastorais… E esquecemos de escutar a voz de Cristo: “Não se perturbe o vosso coração”. Não é um convite à passividade, mas à confiança ativa.

 

2. Pedras vivas de uma Igreja viva

Na segunda leitura (1Pd 2,4-9), somos chamados de “pedras vivas”. Isso é forte! A Igreja não é feita de estruturas, mas de pessoas que vivem unidas a Cristo.

 

Cada um de nós tem um lugar na construção do Reino. Ninguém é inútil. Ninguém é descartável.

Mas há uma condição: estar unido à “pedra angular”, que é Cristo. Quando nos afastamos d’Ele, perdemos o sentido, ficamos desencaixados, sem direção.

 

3. O caminho vicentino: deixar Deus agir em nós

Aqui entra com força o pensamento de São Vicente de Paulo:

“É preciso sair de si mesmo para entrar em Deus… pedir-lhe que fale em nós e por nós.”

 

Esse pensamento é profundamente evangélico. Jesus mesmo diz: “As palavras que vos digo não são minhas, mas do Pai”.

Ou seja: o verdadeiro discípulo não vive centrado em si mesmo, mas em Deus.

Quantas vezes fazemos o contrário:

- queremos resolver tudo sozinhos

- confiamos apenas na nossa inteligência

- agimos por impulso ou vaidade

- E aí… estragamos a obra de Deus.

São Vicente nos lembra: se deixarmos Deus agir, Ele fará a obra — e bem feita.

 

4. Aplicações práticas para a vida

A Palavra de hoje não pode ficar só na reflexão. Ela pede decisões concretas:

1. Cultivar a confiança em Deus
Diante das preocupações, rezar mais do que reclamar. Antes de agir, colocar tudo nas mãos de Deus.

2. Buscar a vontade de Deus antes de decidir
Perguntar sempre: “Senhor, o que queres de mim?” — seja na família, no trabalho ou na missão.

3. Viver como “pedra viva” na comunidade
Assumir responsabilidades, servir com generosidade, não ser apenas espectador na Igreja.

4. Sair de si mesmo
Praticar a caridade concreta, especialmente com os mais pobres — coração do carisma vicentino.

5. Deixar Deus falar através de nós
Cuidar das palavras: evangelizar, consolar, orientar… e evitar críticas destrutivas, fofocas e divisões.

 

5. Conclusão: um caminho que é pessoa

Jesus não nos deixou um mapa, mas uma presença. Ele é o Caminho.

Segui-Lo significa:

- confiar mesmo sem entender tudo

- servir mesmo quando custa

- amar mesmo quando não somos correspondidos

- E, acima de tudo, deixar que Deus viva e aja em nós.

 

Que hoje possamos pedir a graça de um coração menos perturbado e mais confiante. Um coração que não quer brilhar por si mesmo, mas que permite que Deus brilhe através dele.

 

Amém.

sábado, 25 de abril de 2026

Missão do Japão: 26/04/2026: IV Domingo da Páscoa: Bom Pastor | ANO A Homilia





Queridos irmãos e irmãs,

 

celebramos hoje o 4º Domingo da Páscoa, tradicionalmente conhecido como o Domingo do Bom Pastor. A Palavra de Deus nos conduz a uma imagem profundamente consoladora: Jesus que se apresenta como aquele que cuida, chama, conduz e dá a vida por suas ovelhas.

 

No Evangelho de hoje (Jo 10,1-10), Jesus afirma algo forte e decisivo: “Eu sou a porta das ovelhas”. Não é apenas um caminho entre outros. Ele é a porta, aquele por quem entramos para a vida verdadeira. Quem passa por Ele encontra segurança, alimento e liberdade: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.”

 

Essa imagem do pastor e das ovelhas não fala de domínio, mas de relação. O pastor conhece suas ovelhas, chama cada uma pelo nome, e elas reconhecem sua voz. Aqui está o centro da vocação cristã: ouvir a voz de Deus e segui-la.

 

Na primeira leitura (At 2,14a.36-41), vemos o início dessa dinâmica. Após o anúncio de Pedro, o povo pergunta: “O que devemos fazer?” E Pedro responde: “Convertei-vos!” Ou seja, abrir o coração, deixar-se tocar, mudar de direção. E o resultado é impressionante: milhares acolhem a Palavra e iniciam uma nova vida.

 

Já na segunda leitura (1Pd 2,20b-25), São Pedro nos recorda que Cristo é o pastor que nos conduz pelo amor que se entrega: “Éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas.” Jesus não guia de longe; Ele guia dando a própria vida, carregando nossas dores, curando nossas feridas.

 

E é exatamente nesse contexto que a Igreja celebra hoje a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. Somos convidados a olhar para essa figura do Bom Pastor e perguntar: quem continuará essa missão no meio do povo de Deus?

 

O Papa nos recorda a importância de “abrir brechas no coração dos fiéis”, para que cada um descubra com gratidão o chamado de Deus. Porque vocação não é privilégio de poucos — é um chamado para todos: à vida, ao amor, ao serviço.

Mas, de modo especial, hoje rezamos pelas vocações sacerdotais e consagradas. E aqui ecoa com força o pensamento de São Vicente de Paulo, que dizia:

“Dos padres depende a felicidade do cristianismo… quando os fiéis veem um pastor caridoso, eles o seguem.”

 

É uma palavra exigente, irmãos. Porque um bom pastor aproxima as pessoas de Deus… mas um mau pastor pode afastá-las profundamente.

 

Por isso, São Vicente insistia: formar bons pastores é uma das missões mais importantes da Igreja. Pastores que não busquem a si mesmos, mas que sejam reflexo do coração de Cristo — próximos, misericordiosos, disponíveis.

 

E aqui talvez caiba uma pergunta muito concreta para nós hoje:

Que tipo de voz nós estamos escutando?
E mais ainda:

Estamos ajudando outros a escutar a voz de Deus?

 

Quantas vocações podem estar sendo sufocadas por falta de apoio, de incentivo, de oração dentro das próprias famílias! Quantos jovens nunca se perguntaram seriamente: “Senhor, o que queres de mim?”

Por isso, o compromisso de hoje não é algo secundário. É essencial:

·         rezar pelas vocações

·         incentivar nas famílias e comunidades

·         criar um ambiente onde a voz de Deus possa ser ouvida

Talvez, na sua casa, Deus esteja chamando alguém… um filho, uma filha… e essa voz precisa ser acolhida, não abafada.

 

Irmãos, Jesus continua dizendo: “Eu sou a porta.”
Mas Ele também continua chamando pastores segundo o seu coração.

 

Que nesta Eucaristia possamos renovar nossa disposição de ouvir sua voz… e ajudar outros a ouvi-la também.

Que Maria, Mãe do Bom Pastor, interceda por nós, e que nunca faltem à Igreja santos e bons pastores.

Amém.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

CM 401 anos: Memória histórica, discernimento teológico e compromisso pastoral

Coirmãos da PBCM tem Assembleia Provincial na Dazenda do Engenio no contexto dos 401 da Congregação da Missão


A celebração dos 401 anos da Congregação da Missão, fundada em 17 de abril de 1625 por São Vicente de Paulo, oferece à Igreja uma ocasião singular para refletir sobre a fecundidade histórica e a profundidade espiritual dessa instituição que atravessou quatro séculos sem perder a vitalidade do seu carisma originário. Inserida no contexto das profundas transformações sociais, econômicas e religiosas da França do século XVII, a chamada “Pequena Companhia” surgiu como resposta concreta às urgências evangelizadoras da época, especialmente diante da situação de abandono material e espiritual das populações rurais. A fundação da Congregação não se limitou a uma reorganização de estruturas eclesiais, mas expressou uma nova forma de compreender a evangelização: uma evangelização encarnada, itinerante, próxima dos pobres e permeada pela caridade pastoral.

Desde os seus primórdios, a Congregação da Missão se consolidou como um espaço de renovação evangelizadora profundamente enraizado na experiência espiritual de São Vicente. Seu carisma, centrado na evangelização dos pobres, na formação do clero e na promoção de uma caridade simultaneamente afetiva e efetiva, revelou-se profeticamente alinhado às necessidades mais urgentes da Igreja. A originalidade vicentina não residia apenas na sensibilidade diante da miséria humana, mas na percepção teológica de que os pobres constituem um lugar privilegiado da revelação de Deus e, portanto, um critério de discernimento da autenticidade evangélica. Trata-se de uma opção que ultrapassa o âmbito moral ou sociológico e alcança a esfera propriamente teológica: os pobres não são simplesmente destinatários da ação missionária, mas sujeitos que interpelam e convertem a Igreja.

Essa perspectiva moldou uma verdadeira mística missionária. Para Vicente de Paulo, a missão não era um programa pastoral, mas um modo de ser: assumir o dinamismo kenótico do Cristo evangelizador dos pobres, deixar-se conduzir pelo Espírito e configurar-se continuamente ao Evangelho. A missão vicentina, assim entendida, é inseparável de uma espiritualidade encarnada, marcada pela simplicidade, pela humildade e pela disponibilidade. Esses pilares não constituem apenas virtudes pessoais, mas critérios de uma prática pastoral que busca ser transparente ao modo de agir de Jesus. A caridade vicentina, por sua vez, ganha densidade teológica ao ser compreendida como participação na própria compaixão de Cristo; uma caridade que se expressa tanto no cuidado material quanto na promoção espiritual, integrando a pessoa em sua totalidade.

Ao longo de quatro séculos, a Congregação da Missão manteve viva essa herança espiritual, adaptando-a às contingências históricas sem diluir sua identidade. Em diversos contextos e continentes, missionários vicentinos assumiram tarefas evangelizadoras, educativas, sociais e formativas, respondendo de modo criativo às necessidades emergentes. A formação do clero, elemento constitutivo do carisma, ganhou relevância especial em períodos de crise eclesial, contribuindo para a renovação pastoral e espiritual da Igreja. Em diferentes épocas, o perfil missionário vicentino demonstrou uma capacidade notável de inculturar o Evangelho, assumindo desafios locais e oferecendo respostas que uniam rigor teológico, discernimento espiritual e sensibilidade pastoral.

Celebrar 401 anos, significa realizar uma memória agradecida, mas também crítica, capaz de iluminar o presente e abrir horizontes para o futuro. A reflexão teológica sobre a história da Congregação indica que os desafios contemporâneos exigem uma releitura profunda do carisma vicentino à luz das realidades atuais. O mundo hodierno apresenta novas formas de pobreza e exclusão: econômicas, afetivas, espirituais, culturais e digitais, que interpelam diretamente o carisma da evangelização dos pobres. A mudança de época descrita pelo recente magistério eclesial e continuamente reafirmada pela prática pastoral da Igreja convida a Congregação a reinterpretar, com fidelidade criativa, a urgência missionária que motivou sua fundação.

Torna-se imprescindível desenvolver uma pastoral que não apenas “vá ao encontro” dos pobres, mas que os reconheça como protagonistas da evangelização. Esse movimento exige uma conversão pastoral que supere modelos assistencialistas, promovendo processos de autonomia, participação e formação integral. A tradição vicentina fornece elementos fundamentais para essa tarefa: a atenção às necessidades concretas, o discernimento comunitário, a caridade organizada e a espiritualidade que integra ação e contemplação. Ao mesmo tempo, a formação do clero, hoje tão impactada pelas transformações culturais e pela complexidade das demandas pastorais, necessita ser continuamente renovada segundo o ideal vicentino de pastores próximos do povo, atentos à realidade e movidos pela caridade pastoral.

O aniversário dos 401 anos da Congregação da Missão não é apenas uma comemoração histórica, mas um exercício eclesial de discernimento. Em um contexto global marcado por desigualdades crescentes, tensões sociopolíticas e desafios éticos profundos: como as guerras, a migração forçada, a crise ambiental, a insegurança alimentar e as novas vulnerabilidades do mundo digital, o carisma vicentino revela sua perene atualidade. Ele convida a Congregação e toda a família vicentina a responder pastoralmente com criatividade, coragem e fidelidade ao Evangelho. A espiritualidade vicentina, centrada na caridade concreta e na evangelização encarnada, permanece como fonte inspiradora para a construção de uma Igreja verdadeiramente missionária, sinodal e comprometida com os últimos.

Celebrar os 401 anos da Congregação da Missão é reafirmar a força de um carisma que, longe de se esgotar, continua a fecundar a vida da Igreja e da sociedade. A Pequena Companhia, nascida de uma profunda experiência espiritual e de uma leitura atenta dos sinais dos tempos, permanece como testemunho vivo de que a missão cristã se renova continuamente quando se enraíza na simplicidade do Evangelho e se orienta pela centralidade dos pobres. A continuidade desta história depende da capacidade de cada geração de missionários de cultivar a chama da caridade, de viver a humildade como forma evangélica de autoridade e de manter o ardor missionário que caracteriza a vocação vicentina. Este aniversário é um convite a aprofundar a identidade, fortalecer a missão e renovar o compromisso com o Reino de Deus, que se manifesta de modo particular nos rostos feridos e esperançosos dos pobres.

Fonte: Eliseu Wisniewsk na Unisinos