Meus irmãos e minhas irmãs, o Evangelho de
hoje nos apresenta uma cena muito simples: um pai chama os dois filhos e pede
que vão trabalhar na vinha. Um diz: “Não quero”, mas depois muda de
ideia e vai. O outro responde: “Sim, senhor”, mas não vai.
Jesus está falando de uma coisa muito presente
na nossa vida: a diferença entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos.
É muito fácil dizer: “Eu tenho fé”, “eu amo a
Deus”, “eu sou católico”, “eu quero ajudar”. Mas a pergunta que Jesus nos faz
hoje é: Onde está a nossa fé nas nossas atitudes?
Às vezes, nós também somos como esses dois
filhos. Prometemos muito a Deus, mas fazemos pouco. Em outras situações,
começamos dizendo “não”, porque estamos cansados, decepcionados ou com medo,
mas depois abrimos o coração e fazemos aquilo que Deus nos pede.
1. Deus
olha para a mudança do nosso coração
O profeta Ezequiel diz uma coisa muito bonita:
se o ímpio abandona o pecado e pratica o direito e a justiça, ele viverá.
Isso significa que, para Deus, nossa história
não está determinada pelo nosso passado.
·
Talvez alguém aqui pense: “Eu já errei
demais”.
·
Talvez outro diga: “Eu me afastei da Igreja”.
·
Outro: “Eu não consigo perdoar”.
·
Outro: “Eu não tenho mais forças”.
Mas Deus está dizendo hoje: você ainda pode
mudar de direção!
O Evangelho não é uma condenação para quem
disse “não”. É um convite para quem quer dizer “sim” novamente.
2. São
Vicente de Paulo: a fé que se transforma em serviço
E aqui entra muito forte o testemunho de São
Vicente de Paulo.
Vicente não começou sua missão sabendo
exatamente tudo o que Deus queria dele. Ele foi descobrindo sua vocação pouco a
pouco, deixando-se transformar pelos encontros com os pobres, com os
camponeses, com os doentes e com as pessoas abandonadas.
E Deus suscitou, através dele, três grandes
obras que marcaram a Família Vicentina.
1.
Primeiro, em 1617, surgiram as Confrarias
da Caridade, hoje presentes na história da Associação Internacional da
Caridade (AIC). Mulheres leigas se organizaram para cuidar concretamente
dos pobres, visitando-os, levando alimento, remédio, roupa e, sobretudo,
presença e dignidade.
2.
Depois, em 1625, nasceu a Congregação
da Missão, para evangelizar os pobres e formar o clero.
3.
E, em 1633, juntamente com Santa Luísa
de Marillac, nasceu a Companhia das Filhas da Caridade, para servir os
pobres de maneira organizada e permanente.
Mas quero destacar hoje especialmente a AIC.
Porque ela nos lembra de uma coisa muito
importante: a caridade não pode ficar somente no discurso.
São Vicente percebeu que não bastava dizer aos
pobres: “Deus ama vocês”. Era necessário também perguntar: “O que vocês
precisam?”
·
Precisavam de comida? Vamos levar comida.
·
Precisavam de cuidado? Vamos cuidar.
·
Precisavam de alguém que os escutasse? Vamos
escutar.
·
Precisavam recuperar a dignidade? Vamos
caminhar com eles.
Essa é a caridade cristã.
3. “Filho,
vai trabalhar na vinha”
Meus irmãos, talvez a nossa vinha hoje esteja
justamente aqui, no nosso bairro, na nossa comunidade, na nossa família.
A vinha de Deus está naquela pessoa que mora
perto de nós e passa necessidade.
·
Está naquela mãe que cria os filhos sozinha.
·
Está naquele idoso que quase não recebe
visitas.
·
Está naquele jovem que está perdido e precisa
de alguém que acredite nele.
·
Está naquela família que está desempregada.
·
Está naquela pessoa que nós julgamos, mas que
talvez esteja precisando simplesmente de alguém que lhe diga: “Eu estou com
você.”
É aqui que a segunda leitura ilumina o nosso
caminho.
São Paulo apresenta Jesus como aquele que “se
humilhou”, assumiu a condição de servo e se entregou pelos outros.
Jesus não ficou apenas dizendo que amava. Ele
serviu. Ele se abaixou. Ele tocou as feridas. Ele carregou a cruz.
Por isso, ser cristão não é somente vir à
missa. É sair da missa diferente.
Não basta dizer: “Sim, Senhor!”
É preciso perguntar:
Onde o Senhor está me mandando trabalhar?
4. Uma
Igreja que serve na periferia
Aqui na Paróquia Pai Misericordioso, nós
vivemos numa realidade concreta. Temos dificuldades, famílias sofrendo, jovens
procurando caminhos, pessoas enfrentando problemas financeiros, solidão,
violência, dependências e tantas outras situações.
E Deus não colocou esta comunidade aqui por
acaso.
Nós somos enviados para esta realidade.
Talvez não consigamos resolver todos os
problemas. Mas podemos fazer alguma coisa.
·
Podemos visitar.
·
Podemos escutar.
·
Podemos rezar.
·
Podemos organizar uma ação solidária.
·
Podemos formar uma Conferência de São Vicente
de Paulo.
·
Podemos cuidar de uma família.
·
Podemos olhar para quem ninguém olha.
·
Podemos ser presença de Deus.
Isso é muito vicentino.
Conclusão
Meus irmãos e minhas irmãs, hoje Jesus nos
pergunta:
Qual dos dois filhos somos nós? Aquele que diz “sim”, mas não faz? Ou aquele que talvez tenha começado
dizendo “não”, mas depois permitiu que Deus transformasse seu coração?
São Vicente nos ensina que a santidade
começa quando a fé deixa de ser apenas palavra e se transforma em serviço.
Que a nossa comunidade possa aprender com a
AIC, com a Congregação da Missão e com as Filhas da Caridade que o amor precisa
ter mãos, pés, olhos e coração.
E que, nesta semana, quando Deus nos disser: “Filho,
vai trabalhar na minha vinha”, nós não apenas respondamos “sim”.
Que nossas atitudes possam dizer: “Senhor,
aqui estou. Envia-me. Quero servir.”
E que, olhando para cada pessoa necessitada do
nosso bairro, possamos enxergar não um problema, mas um irmão, uma irmã, o
próprio Cristo que nos chama à caridade.
São Vicente de Paulo, rogai por nós e
ensinai-nos a servir Cristo nos pobres. Amém.
São Vicente de Paulo, presbítero
Vicente (Pouy perto de Dax, França, 1581 — Paris,
27 de setembro de 1660), sacerdote, pároco, dedicou-se primeiro à evangelização
das populações rurais, foi capelão das galeras e apóstolo da caridade entre os
pobres, doentes e sofredores. Na sua escola se formaram sacerdotes, religiosos
e leigos, que foram os animadores da Igreja na França, e sua voz se fez
intérprete dos direitos dos humildes junto aos poderosos. Promoveu uma forma
simples e popular de evangelização. Fundou as Damas da Caridade (AIC – 1617), os
Padres da Missão (Lazaristas — 1625) e, junto com Santa Luísa de Marillac, as
Filhas da Caridade (1633).



