sexta-feira, 17 de julho de 2026

Férias Missionárias 2026: Japão e Austrália


Minhas férias missionárias, no Anno Domini Nostri Iesu Christi de 2026 aconteceram entre Japão e Austrália. A primeira quinzena de junho do corrente foi marcada por muitos encontros, fraternidade e partilha. Desde já, meus sinceros agradecimentos às lideranças e às comunidades católicas brasileiras nipônica e da ilha-continente.



1. Contexto e início da viagem

Há mais de cinco anos que venho realizando algum tipo de trabalho junto a católicos brasileiros que vivem no Japão, mas especialmente os fiéis na Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus de Iwata. Depois da visita que realizei in loco, em janeiro de 2024, a relação se consolidou, quando passei a acompanhar de perto e virtualmente, o grupo dos Portadores da Misericórdia, que rezava nas famílias com uma capelinha de Jesus Misericordioso. Naquele então, apresentei-lhe a devoção a Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa, o que confirmou o desejo que a coordenação tinha de introduzir Maria à capelinha. Depois de rezar e refletir à vontade de Deus sobre o apostolado do grupo, conseguimos, em 2026, tornar real a capelinha atual, quando, retornei ao Japão portando 15 capelinhas com Jesus e Maria.



A viagem foi tranquila, apesar de longa: Belo Horizonte à Ubatuba de van, onde estive com os coirmãos jovens em nosso passeio comunitário. Dali fui à São Paulo em ônibus, hospedando-me na Paróquia São Vicente de Paulo, no Moinho Velho, com os coirmãos da Provincia de Curitiba da congregação da Missão, Pe. João Portes, CM e Pe. Eusébio Spisla, CM; onde também tive a alegria de celebrar a eucaristia, cuja liturgia estava a cargo da Pastoral Familiar. Na madrugada do dia 1º de junho, peguei avião para 14h20 de voo rumo a nossa primeira parada: Qatar. Chegamos ali na noite do mesmo dia. Nas mais de seis horas de conexão, fiz amizade com um grupo de brasileiros, especialistas em assistências técnicas de eletrônicos, que iam ao Vale do Silício chinês, e aproveitamos para explorar os quatro cantos do impressionante Aeroporto Internacional de Hamad, visitando o jardim tropical interno chamado The Orchard, as diversas esculturas gigantes de arte espalhadas, sendo a mais famosa o icônico "Urso de Pelúcia" (Lamp Bear), passeio no trem interno que conecta os terminais que são verdadeiros shoppings centers de luxo, com lojas de grifes, restaurantes e salas vips.



2. Missão do Japão



Já era madrugada do dia dois e outra vez estava na Qatar Airlines, rumo à Tóquio. O avião subiu e a tensão também, pois tivemos que sobrevoar o famigerado Estreito de Ormuz, que permanecia fechado, devido ao recente conflito bélico envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Com pouco mais de 10 horas de voo, aterrizamos, na noite do dia dois, em Narita; aeroporto em Chiba, Japão, que serve a Área da Grande Tóquio, onde fui recebido pelo casal Takami e Raquel.


O abraço brasileiro em terras nipônicas trouxe a sensação de está em casa, o que não durou muito tempo, uma vez que fui informado que nos dirigiríamos ao encontro do Tufão Jangmi, que obrigou as autoridades japonesas emitirem alerta máximo para as ilhas de Okinawa e Amami, com possibilidade, de interrupções no transporte público em Tóquio e regiões próximas, e alertas de emergência para inundações em diversos rios, incluindo o nível máximo de alerta para o rio Kozagawa, na província de Wakayama, indicando risco extremo de enchentes. Uff! Foram mais quatro horas de viagem, em carro, até Iwata cidade da província de Shizuoka, com chuva fininha e vento fresco. Chegamos em casa depois da meia noite. Foi só se acomodar, a chuva engrossou e a ventania bateu. Assim ficamos até 11h do dia seguinte. 

 

2.1 Visitas e bênçãos nas famílias



O dia três, foi um tempo de recuperação da viagem e adaptação ao novo fuso horário. Descanso pela manhã, e almoço com o jovem Henrique, que me levou a saborear a genuína comida oriental em um restaurante chinês. Logo tive uma tarde de estudos e à noite fizemos, Genilde, seu filho Samuel e eu, a primeira visita na residência dos zeladores da capelinha, Everton, Leila, Sophia e Laila, onde rezamos, jantamos e convivemos.

Na quinta-feira, dia 04, fui com Pe. Roed, CM, nosso coirmão filipino e anfitrião, pároco local, à sede diocesana de Yokohama, cidade da região metropolitana de Tóquio. Ali fomos recebidos pelo Chanceler, Pe. Shintaro Taniwaki, pois o ordinário local, Dom Rafael Masahiro Umemura estava numa reunião do arcebispado. Ainda em Yokohama visitamos o observatório da Harbor View Park e almoçamos no bairro chinês passamos pelo Cosmo Word, lugar repletos de arranha céus e uma roda gigante de mais de 100 metros de altura. À noite a visita foi na cada dos zeladores Valdenei Endo e Gildete.

No dia 05, pela manhã, visitamos os zeladores Roberto e Yumi, que nos receberam em sua residência, onde também funciona a livraria Bom Pastor e o buffet Trindade em Hamamatsu. Às 20h, na companhia do Takami, dirigi-me à igreja de Saginomiya, onde atendi confissões e presidi a missa da Primeira Sexta-feira do mês, em honra ao Sagrado Coração de Jesus.

 


2.2 Solenidade do Corpo de Deus e formação sobre as capelinhas



O sábado dia 06 foi repleto de atividades, a começar pelo Rosário e Missa com café da manhã com o Grupo do Terço, às 8h. Logo seguimos rumo a Toyokawa-Shi, onde às 11h30, visitamos a residência dos zeladores Naichelli e Jones, onde almoçamos, e logo, 14h, tivemos visita e chá da tarde na casa dos zeladores Wilson Hideo e Cristiane. Diferente do Brasil, Japão celebra o Corpus Christi no domingo depois da quinta-feira que marca 60 dias após o Domingo de Páscoa. Assim que, na véspera, às 18h atendi confissões e às 19h, tive a alegria de presidir, em português, a solenidade na Paróquia de São Francisco de Assis emHamamatsu. A igreja ficou repleta de brasileiros, muitas pessoas amáveis que tive o prazer de rever e outras de conhecer. Depois da missa, insistimos em fazer a caminhada com o santíssimo pelo jardim da igreja e colégio dos salesianos que servem no local. Não podíamos cantar ou fazer barulho para não “perturbar” os vizinhos, de modo que a procissão foi realizada num silêncio oracional, as crianças fizeram um bonito tapete para Jesus Sacramentado e pudemos finalizar a celebração com a benção de envio a partir de um lugar elevado próximo a casa paroquial.



Dia 07, domingo, estive pela manhã na casa paroquial de Iwata, logo visitei a casa da Genilde e Edson, onde almocei. Às 13h retornamos à igreja de Santa Terezinha para uma tarde de formação com os zeladores, sobre o apostolado com a nova Capelinha da Misericórdia e a Associação da Medalha Milagrosa. A formação foi transmitida pelo canal de youtuber do Jones. Foi um momento de partilha, testemunho, formação, oração e envio missionário. Às 17h atendi confissões e às 18h, tivemos a Missa de Corpus Christi em Iwata. Outra vez, igreja cheia, com alguns fieis no salão paroquial de onde se podia acompanhar a celebração pelas TVs do circuito interno da paróquia. Ali também não haveria procissão com o Santíssimo, mas quisemos levá-Lo até o salão, para encontrar com as pessoas que ali estavam. Depois da missa, houve um lanche partilhado, em seguida, acompanhei o grupo de jovens Rosas de Teresa, que se reuniam para rezar o terço.    

 

2.3 Amizade, cultura e fé



Na segunda-feira, dia 08, às 7h da manhã, fui com o jovem Enrick, à cidade de Osaka, para visitar o Pe. Hipolito Vida, moçambicano da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN), que nos levou a conhecer a Catedral de Santa Maria (Igreja de Tamatsukuri), explicando cada detalhe do local com ênfase especial ao Beato Justo Takayama Ukon foi um senhor feudal (daimiô) no Japão que se converteu ao catolicismo durante o século XVI, período em que os jesuítas chegaram ao país. Como outros líderes, ele viveu a fé cristã apesar de suas obrigações guerreiras. O Beato é conhecido como o "Samurai de Cristo", ele governou o Castelo de Takatsuki. Quando o Xogunato baniu o cristianismo, ele preferiu perder suas terras, sua riqueza e ser exilado nas Filipinas (onde faleceu em 1615) a renegar sua fé. Ele foi beatificado por Angelo Amato, representando Papa Francisco, em Osaka, 2017. Depois de almoçarmos como Pe. Hipólito, ele teve que ir a um encontro do clero e, Enrick e eu empreendemos o caminho de volta à casa, passando pelo Castelo de Osaka, denominado Ōsaka-jō.





Na manhã do dia 09, terça-feira, estivemos na área da Paróquia Imaculada Conceição de Kakegawa, capela Nossa Senhora de Fátima em Kikugawa, para celebração de exéquias do jovem nipo-brasileiro, Vinícius Quirino, que falecera, momento em que prestamos nossa solidariedade à família, o que reiteramos. Na tarde do mesmo dia, seguimos com Pe. Roed e paroquianos ao Templo Minobusan Kuonji, templo budista na província de Yamanashi. Na volta à casa passamos por Fujinomiya para visitar o Centro do Patrimônio Mundial do Monte Fuji, museu dedicado ao Monte Fuji, inaugurado em 2017 para comemorar a designação da montanha como Patrimônio Mundial da UNESCO.



Quarta-feira dia 10, foi um dia de descanso, aproveitei para fazer as malas, uma de roupas e a outra com lembrancinhas e chocolates graças a generosidade do Takami e de outros paroquianos. À noite, concelebrei missa na eucaristia em japonês, presidida pelo Pe. Roed, em seguida nos reunimos diante do Santíssimo, Genilde, Leila, seus filhos e eu, para o grupo de intercessão que sempre ocorre às segundas, mas naquela semana, fizemo-lo, excepcionalmente na quarta, a partir da igreja e com alguns membros conectados num mesmo telefone. Nestes encontros de partilha, intercessão e oração, reúnem-se, virtualmente, membros de diferentes cidades dos dois países implicados: Brasil e Japão.

Na manhã do dia 11, quinta-feira, Pe. Roed me acompanhou no famoso trem-bala, Shinkansen, que atinge até 320 km/h e com extrema pontualidade até Tóquio. Ali fomos recebidos pelo Pe. Ambrósio Silva, SDB, que nos levou a conhecer Inspetoria São Francisco Xavier, sediada em Chofu, na região metropolitana de Tóquio. Antes de irmos à Narita, Pe. Ambrósio e eu passamos por Shinjuku, que tem a estação de trem mais movimentada do mundo, arranha-céus, luzes de neon e a famosa tela 3D do gato gigante em frente à estação. A área mistura uma metrópole futurista com templos tradicionais e o amplo parque Shinjuku Gyoen. Dali de trem, fomos ao aeroporto. Ali chegando, confirmamos o cancelamento de meu voo à Brisbane. Depois da minha resistência, os atendentes da Jetstar me colocaram em um voo à Cairns, Austrália.

 


3. A fraternidade na Austrália

3.1 Os brasileiros em Brisbane




Amanheci no aeroporto de Cairns, e claro não pude desfrutar da cidade porque a vida só começa às 8h e meu voo era às 11h, assim que aproveitei apenas o jardim do aeroporto, apreciando os Montes de Cupins, montados e alumínio, representando Adhalik e sua esposa e filhos, bem como mergulhar vitualmente na natureza exuberante local. Em Brisbane cheguei às 14h do dia 12. Ali fui acolhido pelo Pe. Francisco Evangelista, cearense, da diocese de Iguatu, que está em missão na Austrália. À noite, fomos abençoar o quarto de um bebê que ia nascer e jantamos com os papais: Pedro e Paula.


Na manhã do dia 13, acompanhei o Pe. Francisco à Paróquia de Santa Maria onde celebramos a eucaristia. Em seguida, fizemos um passeio pela cidade que se molda às margens do rio Brisbane. Nossa parada principal foi no Sky Deck, onde fizemos um lanche e apreciamos a Cidade numa plataforma de observação e passarela de 250 metros de extensão, situada a 100 metros de altura, localizada na parte superior do prédio multifuncional com hotel, restaurante, cassino, etc.; local de onde eles têm a queima de fogos e são projetadas mensagens diversas e a contagem regressiva do réveillon. Ali, Pe. Francisco me falava da cultura local, dentre as quais, as cerimônias pró-aborígenes que são realizadas antes de eventos importantes na Austrália, as duas principais cerimônias indígenas são o Welcome to Country (Boas-vindas à Terra), sempre realizada por um Ancião (Elder) ou guardião tradicional aborígene, e o Acknowledgement of Country (Reconhecimento da Terra), que pode ser feito por qualquer pessoa (indígena ou não) presente no evento. Elas celebram a herança viva dos aborígenes, o grupo cultural mais antigo em continuidade no mundo. Há ainda, duas outras cerimônias singulares: Smoking Ceremony (Defumação) onde se queimam eucaliptos para com a fumaça purificar o ambiente, e WugulOra Morning Ceremony, cerimônia matinal de elevação espiritual e cultural que marca o início oficial de grandes celebrações nacionais, como o Dia da Austrália, na região de Sydney. Voltamos à casa, pelas praias de rio do local, não sem antes desfrutar do sabor mexicano do Guzman y Gomez (GYG) que é uma famosa rede de fast-food mexicana fundada em Sydney em 2006. Eles são conhecidos por oferecer um menu "limpo" com ingredientes frescos e opções customizáveis como burritos, tacos, nachos e guacamole, mas nós fomos ali por causa do feijão! (Risos). À noite fomos a um aniversário de quatro lideranças comunitárias brasileiras, na residência do casal Aline e Tiago, onde conheci dentre outros irmãos, o jovem baiano, Israel Ribeiro, que estava na cidade fazendo doutorado.



O domingo dia 14 “maratonamos” nas missas. O pároco local, Pe. William Aupito, estava de retiro espiritual, ficando as missas sobre a responsabilidade do Pe. Francisco. Inicialmente seriam três (Santa Maria, Santa Ita e Santa Mônica), já que, eu já tinha recebido autorização do Arcebispo, Dom Shane Anthony Mackinlay, para presidir junto à comunidade brasileira na Igreja de São Patrício; porém também tocou ao Pe. Francisco celebrar à noite na Catedral de Santo Estêvão. Assim que presidi uma e concelebrei quatro missas naquele dia. Mesmo assim, não foi cansativo, para mim, foi uma alegria, poder rezar e conhecer pessoas e lugares que ficarão para sempre em meu coração. Além da viva, organizada e amistosa comunidade da St Patrick's Church, localizada no boêmio bairro Fortitude Valley, ficou muito vivo em mim, a igreja nascente, que justo naquele dia, reunia-se, pela primeira vez, para celebrar a eucaristia. O casal Rafael e Alexandra e equipe, muito zelosos, cheios do Espírito e com viva esperança, lançavam, com Pe. Francisco, esse novo horário, dia e local de missa: 11h30, 2º domingo do mês, capela de Santa Mônica, da escola de Santo Agostinho em Ipswich. Parabéns pelo empenho! Que a missão de vocês continue crescendo em “sabedoria, estatura e graça” diante de Deus e dos homens desse País.   



Concelebrar na Catedral foi uma grata surpresa. Santo Estêvão teve sua pedra fundamental lançada em 26/12/1863 pelo seu primeiro bispo, o irlandês, Dom James Quinn. No final do século XX pensou-se em transformá-la em Catedral do Santo Nome, o projeto não avançou além da cripta. A Igreja não tão grande, mas tem formato de cruz, é cheia de arte, vitrais e muito acolhedora. Além do órgão de tubos, cuja instalação data do ano 2000 e da Capela do Santíssimo Sacramento, situada na parte posterior do edifício, ladeada pela imagem da Virgem e painel da pia batismal, destaco a representação de Cristo, escupido em bronze pelo artista local John Elliott. Suspenso sobre o altar, ele foi projetado para ser visto de todos os ângulos e busca retratar tanto o sofrimento da cruz quanto a vitória da ressurreição. Em definitivo, o Crucificado emana beleza, piedade e transcendência. Nos ajudaram na celebração acólitos filipinos, dentre eles, Xavier Villagonzalo, que falava espanhol e pudemos nos comunicar com mais diligência, diferente da comunicação oficial local, o inglês, o qual tenho ainda muito a aprender. Era a última missa daquele anoitecer dominical, eu fiquei andando pela igreja, contemplando sua arte. Logo fui abordado por um jovem australiano, que queria ser atendido em confissão. Mesmo com as limitações linguísticas não pude deixar de atender. Foi bom poder ajudar aquele jovem a se libertar. Deus o abençoe! Ao lado da catedral se conserva em pé, a primeira igreja católica de Queensland: Capela de Santo Estêvão. Projetada pelo arquiteto Augustus Pugin, foi concluída em 1850, onde atualmente funciona o santuário de Santa Mary da Cruz MacKillop, que com São Patrício, é co-padroeira da Arquidiocese de Brisbane. Ela foi a primeira australiana a ser canonizada. Nascida em 1842, fundou as Irmãs de São José com o Padre Julian Tennison-Woods em Penola, Austrália do Sul, em 1866. Construiu e administrou muitas escolas e instituições de assistência social na Austrália e na Nova Zelândia. Faleceu em 1909 e foi canonizada em 2010, no Vaticano, pelo Papa Bento XVI.



A segunda-feira, 15, foi dia de descanso. Saímos pela cidade, Pe. Francisco e eu. As passagens de transporte público são muito acessíveis. Isso faz parte da política pública local que incentiva seu uso desse meio de locomoção em preparação para as olimpíadas que acontecerão na cidade de Brisbane em 2032. À tardinha, Pe. Francisco foi a um curso de formação permanente nas dependências da Catedral, e tocou-me caminhar sozinho pela Queen Street, a rua principal do centro. Seu nome é uma homenagem à Rainha Vitória do Reino Unido. A rua abriga o Queen Street Mall, um calçadão que é amplamente considerado o coração cívico de Brisbane.


3.2 Os coirmãos em Sydney



Na madrugada do dia 16, cumprimentei o Pe. William, e sai com Pe. Francisco rumo ao aeroporto, a quem agradeço imensamente. Voei de Virgin até Sydney. Já no Aeroporto Internacional Kingsford Smith fui bem recebido, pelo coirmão, Pe. Glenn Humphreys, CM. Aí tive que destravar o meu inglês, pois estava com zero intérprete. Pe. Glenn muito amável, paciente e cuidadoso me conduziu ao centro de Sydney, sua missão era também me mostrar os principais pontos da cidade antes de me levar à casa. A primeira parada foi no Jardim Botânico Real de Sydney, onde pude contemplar de frente, como se estivera em um barco no Mar de Tasmânia, as imponentes e famosas: Casa da Ópera e Ponte da Baía de Sydney. Logo fomos até o Watsons Bay, periferia da cidade, uma zona próspera, mas já foi local de muita dor, pois li iam pessoas suicidar-se nas falésias oceânicas e local de naufrago do navio Dunbar em 1857, resultando na perda de 121 vidas; para mudar essa situação o Governo construiu grades de segurança nos desfiladeiros (Gap Park) e um farol (Macquarie Lighthouse) para orientar as navegações. Nossa próxima parada foi na Catedral de Santa Maria, uma majestosa construção de estilo gótico construída de 1868 a 1928 com arenito local e que oferece missas e exposições. Inclusive nestes dias estava disponível uma exposição imersiva da Capela Sistina. Nossa jornada continuou e seguimos para a Opera House. O sacrifício foi encontrar lugar para estacionar o carro. Descemos, em caracol, até o quinto andar do estacionamento local, em poucos lugares vi tanto carrão como ali; subimos de elevador e já estávamos na esplanada da Casa da Ópera, ali pude viver cada cantinho do local bem disputado por turistas, trabalhadores ou pessoal do crossfit que sabiam explorar com agilidade os arredores do prédio. A Ópera com a Harbour Bridge ao fundo formava o cartão postal perfeito da cidade. A ponte é apelidada carinhosamente de "cabide" devido ao seu formato em arco. Inaugurada em 1932, é a maior ponte em arco de aço do mundo, com 134 metros de altura e 503 metros de extensão. Ela conecta o centro financeiro ao lado norte da cidade e oferece uma vista espetacular para a famosa Sydney Opera House. Quando fomos a casa, passamos por cima da referida ponte. Na comunidade. Pe. Glenn me apresentou os demais coirmãos que ali vivem: o irmão John Gaven, CM, Pe. Philip Robson, CM, diretor das Filhas da Caridade e Pe. Alan Gibson, CM, superior provincial. O almoço na Austrália tem a característica Norte Americana de lanche, porém o jantar, tem lugar especial. Especiais foram os jantares preparados pelo irmão John na comunidade, um verdadeiro chef, cozinhando com amor, sabor e criatividade. Toda a comunidade muito acolhedora, atenta e próxima.  



No dia 17 fui à missa na Paróquia Santo Antônio de Marsfield onde conheci o Pe. Gregory Walsh, CM, passei pelo antigo seminário da Congregação, alugado para uma empresa, funcionando como a casa de eventos “Curzon Hall” e segui minha caminhada pelo bairro. Já era 11h e Pe. Alan me levou a visitar o Koala Park. Foi um passeio divertido, interessante e atemporal, parece que tinha voltado a ser criança. Além de gravar com os coalas, conversar com as araras falantes, e graças a duas simpáticas jovens japonesas que também visitavam o local, alimentamos os cangurus. Antes de retornar a casa, almoçamos. À tarde, Pe. Alan me apresentou a sede provincial e os trabalhos que a Província desenvolve. À noite, veio me visitar o Pe. Paul Mahony, marista, australiano, que missionou no Brasil por mais de 10 anos, com quem conversamos em português brasileiro por mais de uma hora.

 

4. Curiosidades sobre Austrália



Observei que junto às igrejas, quase sempre, tem uma escola. Fui informado que são escolas católicas, todas muito bem avaliadas pela comunidade local e bastante concorridas. Muitos recorrem ao pároco para receber cartas de indicação para seus filhos conseguirem se matricular ali. A fila para conseguir uma vaga pode tardar anos. Observei também que no País, os proprietários podem personalizar as placas de seus carros, vi placas com nomes: Brasil, is2you e até uai-só! Como no Japão Austrália é muito segura, por isso os policiais dedicam muito tempo para ver questões de trânsito e afins. As leis são levadas a sério, tudo pode dá processo e sair caro ao bolso, por isso as pessoas procuram andar na linha. A educação, o bom trato nas relações e o respeito são muito valorizados. Não sei se isso é um costume comum dos católicos do País, mas tanto em Brisbane, quanto em Sydney registrei fiéis rezando abraçados com imagens. 

 

5. Volta ao Mundo e São Paulo



Quinta-feira, dia 18, empreendi minha viagem de volta ao Brasil, sai meio dia e cheguei em São Paulo às 20h do mesmo dia, mas não se enganem, viajei literalmente no tempo, pois se não considerássemos apenas as horas locais, da partida e da chegada, veríamos que na verdade a viagem não foi de 08h, mais de quase 24h. Foram mais de 12 horas sobrevoando o Pacífico até o Chile, mais algumas horas a Curitiba, e logo São Paulo. Assim fechava o círculo, dando literalmente a volta ao mundo, já que comecei minha viagem voando rumo ao leste e voltei pelo oeste. Se Phileas Fogg personagem de Júlio Verne deu a volta ao mundo em 80 dias, eu fui mais apressadinho: 18 (Risos).

 

6. Ceará: família, coirmãos e amigos


Em São Paulo retornei ao Moinho Velho, visitei o Museu do Ipiranga, celebrei outra vez na Paróquia São Vicente de Paulo e participei do terceiro dia de festa junina da paróquia. Quando no dia 20, tentei voar ao Ceará, tivemos nosso voo da Gol cancelado. Foram mais 24h de espera em Guarulhos e só depois pudemos ir à Fortaleza-CE. Ainda no aeroporto em São Paulo, encontrei a Irmã Vilaneide, FC, o José Claúdio e a Hélia Barros. Em Fortaleza fui bem acolhido pelo Pe. Manuel Silva, CM (Bonfim) na casa provincial, e coincidi com outros coirmãos e com o Pe. Abdo Eid, CM, assistente geral que estava de visita Ex Officio à Província. Na tarde do mesmo dia, peguei o ônibus Guanabara para Bela Cruz. Ali com meus pais Wilson e Rita, irmãos e demais familiares, amigos e paroquianos, vivi, matei saudades e descansei. Tive a oportunidade de celebrar em minha paróquia de origem: NossaSenhora da Conceição, e de modo especial, na festa de São Pedro no Cambota, na companhia do prestativo seminarista Mateus Braga. Dia 29 comecei minha viagem de volta à Belo Horizonte, pernoitei em Fortaleza, onde tive o prazer de conhecer a grande numerária Celeste. Dia 30 aterrizei em BH, num voo Gol que teve conexão em Salvador.



 

7. Obrigado, Senhor!



A Providência de Deus, como nos testemunhava São Vicente de Paulo, esteve presente em todo momento, no cuidado, na abertura e no olhar de cada irmão e irmã com quem tive o prazer de servir nestes dias; desde os coirmãos, amigos, as famílias que me acolheram em suas igrejas domésticas, os que participaram dos momentos de formação, de oração, de partilha, até os meus familiares e paroquianos de Bela Cruz – CE, que se alegraram com a minha presença. Com os quais rendo graças a Deus pela missão, pela fraternidade, pela vida!



Continuemos, meus irmãos, continuemos respondendo o chamado de Jesus a sermos um com Deus; vivendo nossa vocação, participando ativamente da Igreja e nos comprometendo com a construção do Reino. Assim vamos crescendo na fé, fortalecendo a nossa esperança e servindo com amor, fazendo-nos discípulos e missionários de Jesus a modelo dos Santos e da Mãe de Deus e nossa, Maria Santíssima. Obrigado por tudo. Deus os abençoe!



domingo, 24 de maio de 2026

Missão do Japão: 24/05/2026: Pentecostes. ANO A - Homilia


 Hoje a Igreja celebra com grande alegria a Solenidade de Pentecostes: a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. Não celebramos apenas uma lembrança do passado, mas uma presença viva e atual. O mesmo Espírito que desceu sobre os discípulos continua sendo derramado sobre a Igreja e sobre cada um de nós.

Na primeira leitura, vemos os apóstolos reunidos no Cenáculo, de portas fechadas, dominados pelo medo e pela insegurança. Então o Espírito Santo desce como vento impetuoso e fogo ardente. O Espírito entra justamente onde havia medo, transformando homens frágeis em testemunhas corajosas do Evangelho.

Também nós carregamos muitas portas fechadas dentro da alma: medo do futuro, cansaço espiritual, feridas, preocupações familiares, desânimo e falta de esperança. Pentecostes nos lembra que Deus é capaz de entrar até mesmo nos lugares mais fechados do nosso coração.

No Evangelho, Jesus ressuscitado aparece aos discípulos e diz: “A paz esteja convosco”. Depois sopra sobre eles e diz: “Recebei o Espírito Santo”. Esse sopro é vida nova. O Espírito Santo renova nossa alma e nos fortalece para viver como verdadeiros discípulos de Cristo.

Essa renovação acontece através dos dons do Espírito Santo, que são graças dadas por Deus para iluminar e sustentar nossa caminhada.

1. O dom da sabedoria nos ajuda a enxergar a vida com os olhos de Deus.

2. O entendimento ilumina nossa mente diante das dificuldades e da Palavra de Deus.

3. O conselho nos ajuda a tomar decisões corretas.

4. A fortaleza sustenta aqueles que enfrentam sofrimentos, tentações e desafios.

5. A ciência nos faz reconhecer Deus em toda a criação.

6. A piedade desperta em nós amor pela oração e pela presença de Deus.

7. E o temor de Deus nos leva a respeitar e amar profundamente o Senhor.

São Paulo recorda na segunda leitura que existem muitos dons, mas um só Espírito. Cada pessoa recebe dons diferentes para o bem da comunidade. Ninguém recebe graças apenas para si mesmo. O Espírito Santo nos capacita para servir, evangelizar, consolar, acolher e construir a unidade.

O problema é que muitas vezes vivemos uma fé apagada e sem entusiasmo. Pentecostes é um chamado para reacender o fogo do Espírito em nossa vida. O mundo precisa de cristãos cheios de Deus, capazes de levar esperança, paz e amor aos outros.

Hoje, mais do que nunca, precisamos rezar com humildade:

“Vinde, Espírito Santo.”

1. Vinde sobre nossas famílias feridas.

2. Vinde sobre nossos medos.

3. Vinde sobre nossa Igreja.

4. Vinde sobre os jovens.

5. Vinde sobre os doentes e desanimados.

6. Vinde sobre os que perderam a fé.

7. Vinde sobre nosso coração cansado.

Que o Espírito Santo abra nossas portas interiores, cure nossas feridas e nos transforme em discípulos missionários de Jesus.

E que Maria, presente no Cenáculo, nos ensine a viver sempre abertos à ação do Espírito de Deus.


História para fixar a mensagem...

Miguel era um jovem que amava Jesus, mas tinha vergonha de falar sobre sua fé. Apesar de rezar e participar da missa, o medo das críticas o fazia permanecer calado.

Numa vigília de Pentecostes, o sacerdote apagou as luzes da igreja e acendeu apenas uma vela, dizendo:

— Basta uma pequena luz para vencer a escuridão.

A chama foi passada de pessoa em pessoa até iluminar toda a igreja. Naquele momento, Miguel entendeu que os apóstolos também tinham medo, mas foram transformados pelo Espírito Santo.

Então rezou:

— Espírito Santo, transforma também meu coração.

Depois disso, começou a anunciar Jesus com pequenos gestos: visitando doentes, ajudando pessoas e convidando amigos para voltar à igreja. O medo ainda existia, mas agora havia algo maior dentro dele: a força do Espírito Santo.

E Miguel descobriu que anunciar Jesus não depende da força humana, mas da coragem que vem de Deus.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Entregar o leme da própria vida a Jesus



Conta-se que um jovem marinheiro enfrentava sua primeira grande tempestade no mar. As ondas eram enormes, o vento sacudia violentamente o barco, e todos estavam desesperados. Enquanto muitos gritavam e corriam de um lado para outro, o rapaz percebeu que o velho capitão permanecia firme segurando o leme. 

Então perguntou: 

— O senhor não está com medo? 

O capitão respondeu serenamente: 

— O mar está agitado, mas o leme continua em minhas mãos. 

Assim também acontece conosco. Muitas vezes nossa vida parece um mar revolto: problemas familiares, enfermidades, crises, perdas e angústias. Porém, quem entrega o leme da própria vida a Jesus não perde a esperança. O mundo pode até trazer tribulações, mas Cristo continua conduzindo a barca de nossa vida. E Aquele que venceu o mundo jamais abandona os que Deus lhe confiou.

Deus não abandona seus filhos



Evangelho: João 16,29-33

No evangelho de hoje, os discípulos dizem a Jesus: “Agora falas claramente… por isso cremos que vieste de Deus”. Eles demonstram segurança, entusiasmo e confiança. Porém, Jesus conhece profundamente o coração humano e responde mostrando que, em breve, eles fugiriam e o deixariam sozinho durante sua paixão. Mesmo assim, Jesus afirma algo extraordinário: “Eu não estou só, porque o Pai está comigo”.

Quantas vezes também nós pensamos que nossa fé é forte, mas diante das dificuldades, do sofrimento, das críticas, das decepções ou das provações da vida, sentimos medo e vontade de desistir. O Senhor conhece nossas fraquezas, mas não deixa de nos amar por causa delas. Jesus não espera discípulos perfeitos; Ele deseja corações sinceros que, mesmo caindo, continuem caminhando confiando na misericórdia de Deus.

Quando Jesus diz: “No mundo tereis tribulações, mas coragem! Eu venci o mundo”, Ele não promete ausência de problemas, mas garante Sua presença em meio às lutas. A vitória de Cristo não aconteceu fugindo da cruz, mas atravessando a cruz com amor e fidelidade ao Pai. Também nós, como Portadores da Misericórdia, somos chamados a levar esperança às pessoas cansadas, feridas e desanimadas, testemunhando que nenhuma dor é maior do que o amor de Deus.

Muitas vezes queremos paz sem luta, vitória sem perseverança e fé sem confiança. Mas Jesus nos ensina que a verdadeira paz nasce da certeza de que Ele caminha conosco. Quem permanece unido a Cristo pode enfrentar tempestades sem perder a esperança.


História para fixar a mensagem

Certa vez, um menino atravessava uma ponte muito alta com seu pai durante uma forte tempestade. O vento balançava a ponte e o menino começou a sentir medo. Então o pai lhe disse:

— Filho, segure minha mão para não cair.

Mas o menino respondeu:

— Não, pai. Segure o senhor a minha mão.

O pai sorriu e perguntou:

— Qual a diferença?

O menino respondeu:

— Se eu segurar sua mão, talvez eu fique com medo e solte. Mas se o senhor segurar a minha, eu tenho certeza de que nunca vai me deixar cair.

Assim é Jesus conosco. Muitas vezes nossa fé vacila, nossas forças acabam e nossas mãos fraquejam. Mas a nossa esperança está no fato de que é Cristo quem segura nossas mãos. E Aquele que venceu o mundo jamais abandona aqueles que Deus os confiou.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado!

domingo, 17 de maio de 2026

Oração para fazer-se um com a Missão do Senhor



Senhor Jesus Cristo, aqui estou, diante de Ti

Tu me conheces, sabe de minhas limitações.

Sou pequeno fraco, quase nada. Mas tu, Senhor me fortalecer.

Tu podes, dá-me ânimo para superar meus limites.

Ensina-me como encontrar-me Contigo, ser mais Teu, ver-Te nos meus irmãos e irmãs.

Quero, preciso dá o melhor de mim. Obrigado por Tua luz, amor e graça.

Fica comigo em meus medos. Precisa os meus passos para que eu não caia.

Obrigado por me acolher, abraçar e me sustentar no meu sim.

Que eu seja Tua testemunha, no aqui e no agora.

Que minhas mãos sejam as Tuas.

Que eu possa responder com mais entrega, entusiasmo e disponibilidade o Teu chamado.

Senhor Deus, permeia-me de Ti.

Permite-me que eu Te leve a todos, que seja canal de Tua graça no mundo.

Pai, ajuda-me ser mais irmão, mais intrínseco na comunidade, motivo de alegria, elo, motivação e coragem em Tua, nossa missão no mundo. 

Amém.

sábado, 16 de maio de 2026

Missão do Japão: 17/05/2026: Ascensão do Senhor. ANO A - Homilia

 


SOLENIDADE DA ASCENSÃO

A Solenidade da Ascensão do Senhor nos convida a levantar os olhos para o céu, mas sem tirar os pés da missão. Jesus sobe ao Pai, mas não abandona a humanidade. Pelo contrário: ao ascender, Ele confia à Igreja a continuidade de sua presença no mundo. A Ascensão não é despedida; é envio. Não é ausência; é uma nova forma de presença.

No Evangelho de hoje, Jesus ressuscitado encontra os discípulos na montanha da Galileia. Alguns ainda duvidavam. E isso é profundamente humano. Mesmo diante da Ressurreição, havia medo, insegurança e fragilidade. Mas Jesus não espera discípulos perfeitos para enviá-los. Ele confia a missão justamente a homens frágeis. E lhes diz: “Ide, fazei discípulos de todos os povos”. A missão nasce da experiência do encontro com Cristo e não da perfeição humana.

A Ascensão revela que Jesus não está limitado a um lugar. Agora Ele pode estar em todos os lugares, em todos os corações, em todas as culturas. Como ouvimos na carta aos Efésios, Cristo está acima de todo poder e autoridade, e tudo foi colocado sob os seus pés. Ele é o Senhor da história. E a Igreja é seu Corpo vivo no mundo.

Na primeira leitura, os anjos dizem aos discípulos: “Por que ficais parados olhando para o céu?”. Essa pergunta ecoa para nós hoje. Há muitos cristãos que olham para o céu esperando milagres, mas esquecem que Jesus os enviou à terra para serem sinais do Reino. A Ascensão nos lembra que a fé não é fuga do mundo, mas compromisso com ele.

E é justamente aqui que a mensagem do Papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais ilumina profundamente esta celebração. Com o tema “Preservar vozes e rostos humanos”, o Papa recorda que o rosto e a voz de cada pessoa são sagrados, porque refletem a imagem de Deus.

Vivemos numa época em que a comunicação cresce de forma impressionante, mas paradoxalmente muitas pessoas se sentem cada vez mais invisíveis, solitárias e descartáveis. Há vozes abafadas pelo ódio, pela polarização, pelas fake news, pela superficialidade e pelo excesso de informações. Há rostos humanos escondidos atrás de telas, algoritmos e aparências.

O Papa alerta que a tecnologia e a inteligência artificial são ferramentas importantes, mas jamais podem substituir aquilo que é mais humano: a escuta, a empatia, a compaixão, a responsabilidade moral e o encontro verdadeiro entre as pessoas. Quando perdemos a capacidade de olhar nos olhos, ouvir com o coração e dialogar com respeito, começamos a desumanizar a comunicação.

E aqui está uma ligação belíssima com a Ascensão: antes de subir ao céu, Jesus envia discípulos para comunicar o Evangelho ao mundo inteiro. Mas Ele não pede apenas transmissão de informações; Ele pede testemunho de vida. O cristão comunica Jesus não apenas com palavras, mas com o modo como acolhe, escuta, perdoa, serve e ama.

A verdadeira comunicação cristã não cria muros; constrói pontes. Não humilha; levanta. Não espalha medo; semeia esperança. Não transforma pessoas em números ou perfis digitais; reconhece em cada rosto a presença do próprio Cristo.

Talvez hoje Jesus também pergunte a nós:
Que tipo de comunicadores estamos sendo dentro de casa, nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, na comunidade e na sociedade?
Nossas palavras aproximam ou ferem?
Nossas postagens evangelizam ou espalham agressividade?
Temos preservado os rostos e as vozes humanas ou colaborado para sua destruição?

A Ascensão do Senhor nos lembra que Jesus voltou ao Pai, mas deixou suas mãos nas nossas mãos, sua voz na nossa voz, seu olhar no nosso olhar. Somos chamados a continuar sua missão no mundo.

E há algo muito bonito: Jesus sobe ao céu levando a nossa humanidade. Isso significa que o céu não está distante da vida humana. Em Cristo, a humanidade entra na glória de Deus. Por isso, toda vez que valorizamos a dignidade humana, defendemos a verdade, promovemos a paz e preservamos o rosto e a voz do irmão, antecipamos um pedaço do céu aqui na terra.

Que nesta Eucaristia peçamos ao Senhor a graça de sermos discípulos missionários da esperança e comunicadores do amor. Que nossas palavras tenham mais verdade, mais ternura e mais Evangelho. E que, num mundo marcado por tantas vozes artificiais, nunca deixemos de reconhecer e preservar aquilo que Deus criou de mais precioso: o rosto humano e a voz humana. Amém.

 

sábado, 9 de maio de 2026

Missão do Japão: 10/05/2026: VI Domingo da Páscoa. ANO A - Homilia



No coração do Evangelho deste 6º Domingo da Páscoa, Jesus nos deixa uma das mais belas promessas: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15). Amar Jesus não é apenas sentir algo por Ele; é transformar esse amor em vida concreta, em escolhas, em atitudes, em fidelidade cotidiana. O amor verdadeiro deixa marcas. E a maior marca do amor a Cristo é viver segundo sua Palavra.


Jesus sabe que os discípulos enfrentarão dificuldades, perseguições e inseguranças. Por isso, Ele promete: “Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Defensor, para que permaneça convosco para sempre: o Espírito da Verdade”. Cristo não abandona os seus. Ele permanece presente por meio do Espírito Santo, que fortalece, consola, ilumina e sustenta a Igreja em todos os tempos.


Na primeira leitura, vemos exatamente isso acontecer. Em Atos dos Apóstolos, Filipe desce à Samaria e anuncia Cristo. O povo acolhe a Palavra, os enfermos são curados, os espíritos malignos são expulsos, e a consequência é clara: “houve grande alegria naquela cidade”. Onde o Evangelho é vivido, nasce alegria verdadeira. O Espírito Santo transforma ambientes, restaura pessoas e reacende esperanças.


Mas é interessante perceber que a fé não ficou apenas na emoção do momento. Os samaritanos acolheram a Palavra e abriram a vida para Deus. A fé tornou-se compromisso. Por isso Pedro e João impõem as mãos sobre eles, e recebem o Espírito Santo. O Evangelho não pode ser apenas ouvido; precisa ser encarnado.


É exatamente isso que São Vicente de Paulo recorda no pensamento proposto hoje. Ele afirma:


“A característica deste amor, o efeito ou sinal deste amor, meus irmãos, é o que diz Nosso Senhor: os que o amam, guardam a sua palavra.”


São Vicente nos ensina que amar Jesus significa amar sua doutrina, seus ensinamentos, seus conselhos e fazer deles um modo de viver. Não basta conhecer a Palavra; é preciso praticá-la e anunciá-la. A Congregação da Missão, dizia Vicente, existe para “levar o mundo à estima e ao amor de Nosso Senhor”.


Que profunda provocação para nós! Quantas vezes ouvimos o Evangelho, rezamos, participamos da missa, mas nossa vida continua igual? Jesus hoje nos pergunta: o Evangelho que você escuta aos domingos aparece nas suas atitudes de segunda-feira? Sua fé transforma o modo como você fala, trabalha, trata a família, vive os relacionamentos e olha para os pobres?

São Pedro, na segunda leitura, nos convida: “Estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança”. O cristão precisa testemunhar a fé não apenas com palavras, mas principalmente com a mansidão, com a coerência e com o amor. Num mundo marcado por tanta violência, egoísmo e indiferença, a maior pregação ainda é uma vida transformada pelo Evangelho.


Os compromissos propostos hoje são muito concretos e profundamente espirituais.


O primeiro: “Assim como Vicente, pergunte-se diante de cada situação da sua vida: qual seria a melhor maneira de agradar a Deus nesse momento?”

Essa pergunta pode mudar nossa vida. Antes de agir impulsivamente, antes de responder com raiva, antes de tomar decisões, deveríamos parar e perguntar: “Senhor, o que mais te agrada agora?” O amor amadurece quando aprendemos a buscar a vontade de Deus acima das nossas emoções e interesses.


O segundo compromisso: “O que posso fazer para viver uma fé ativa?”

Uma fé ativa é aquela que sai do discurso e entra na prática. É a fé que visita um doente, perdoa alguém, ajuda os necessitados, reza em família, educa os filhos no amor de Deus, participa da comunidade e vive a caridade. Fé sem testemunho torna-se apenas teoria religiosa.


E neste domingo, a Igreja no Brasil celebra também o Dia das Mães. Que providencial ouvir hoje Jesus falar do amor que permanece, do cuidado que consola e da presença que nunca abandona. Em muitas mães encontramos um reflexo desse amor de Deus. Quantas mães são presença do Espírito Santo dentro de casa: sustentando a família, consolando nos momentos difíceis, ensinando os valores da fé, rezando silenciosamente pelos filhos e fazendo da própria vida um dom.


Muitas vezes, o primeiro evangelho que uma criança conhece é o colo de sua mãe. O primeiro sinal do amor de Deus é o carinho, o cuidado e o sacrifício materno. Quantas mães evangelizam mais pelo exemplo do que pelas palavras!


Hoje queremos agradecer pelas mães vivas, pedir consolo pelas mães falecidas e rezar também pelas mulheres que carregam no coração o desejo da maternidade, pelas avós, madrinhas e tantas mulheres que exercem maternidade espiritual através do cuidado e do amor.


Que Maria, Mãe da Igreja, ensine todas as mães a serem sinais da ternura de Deus. E que o Espírito Santo prometido por Jesus habite nossas famílias, para que nossos lares sejam lugares de fé, de oração, de perdão e de amor verdadeiro.

Amém.