SOLENIDADE DA ASCENSÃO
A Solenidade da Ascensão do Senhor nos convida a
levantar os olhos para o céu, mas sem tirar os pés da missão. Jesus sobe ao
Pai, mas não abandona a humanidade. Pelo contrário: ao ascender, Ele confia à
Igreja a continuidade de sua presença no mundo. A Ascensão não é despedida; é
envio. Não é ausência; é uma nova forma de presença.
No Evangelho de hoje, Jesus ressuscitado encontra os
discípulos na montanha da Galileia. Alguns ainda duvidavam. E isso é
profundamente humano. Mesmo diante da Ressurreição, havia medo, insegurança e
fragilidade. Mas Jesus não espera discípulos perfeitos para enviá-los. Ele
confia a missão justamente a homens frágeis. E lhes diz: “Ide, fazei discípulos
de todos os povos”. A missão nasce da experiência do encontro com Cristo e não
da perfeição humana.
A Ascensão revela que Jesus não está limitado a um
lugar. Agora Ele pode estar em todos os lugares, em todos os corações, em todas
as culturas. Como ouvimos na carta aos Efésios, Cristo está acima de todo poder
e autoridade, e tudo foi colocado sob os seus pés. Ele é o Senhor da história.
E a Igreja é seu Corpo vivo no mundo.
Na primeira leitura, os anjos dizem aos discípulos:
“Por que ficais parados olhando para o céu?”. Essa pergunta ecoa para nós hoje.
Há muitos cristãos que olham para o céu esperando milagres, mas esquecem que
Jesus os enviou à terra para serem sinais do Reino. A Ascensão nos lembra que a
fé não é fuga do mundo, mas compromisso com ele.
E é justamente aqui que a mensagem do Papa Leão XIV
para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais ilumina profundamente esta
celebração. Com o tema “Preservar vozes e rostos humanos”, o Papa
recorda que o rosto e a voz de cada pessoa são sagrados, porque refletem a
imagem de Deus.
Vivemos numa época em que a comunicação cresce de
forma impressionante, mas paradoxalmente muitas pessoas se sentem cada vez mais
invisíveis, solitárias e descartáveis. Há vozes abafadas pelo ódio, pela
polarização, pelas fake news, pela superficialidade e pelo excesso de
informações. Há rostos humanos escondidos atrás de telas, algoritmos e
aparências.
O Papa alerta que a tecnologia e a inteligência
artificial são ferramentas importantes, mas jamais podem substituir aquilo que
é mais humano: a escuta, a empatia, a compaixão, a responsabilidade moral e o
encontro verdadeiro entre as pessoas. Quando perdemos a capacidade de olhar nos
olhos, ouvir com o coração e dialogar com respeito, começamos a desumanizar a
comunicação.
E aqui está uma ligação belíssima com a Ascensão:
antes de subir ao céu, Jesus envia discípulos para comunicar o Evangelho ao
mundo inteiro. Mas Ele não pede apenas transmissão de informações; Ele pede
testemunho de vida. O cristão comunica Jesus não apenas com palavras, mas com o
modo como acolhe, escuta, perdoa, serve e ama.
A verdadeira comunicação cristã não cria muros;
constrói pontes. Não humilha; levanta. Não espalha medo; semeia esperança. Não
transforma pessoas em números ou perfis digitais; reconhece em cada rosto a
presença do próprio Cristo.
Talvez hoje Jesus também pergunte a nós:
Que tipo de comunicadores estamos sendo dentro de casa, nas redes sociais, nos
grupos de WhatsApp, na comunidade e na sociedade?
Nossas palavras aproximam ou ferem?
Nossas postagens evangelizam ou espalham agressividade?
Temos preservado os rostos e as vozes humanas ou colaborado para sua
destruição?
A Ascensão do Senhor nos lembra que Jesus voltou ao
Pai, mas deixou suas mãos nas nossas mãos, sua voz na nossa voz, seu olhar no
nosso olhar. Somos chamados a continuar sua missão no mundo.
E há algo muito bonito: Jesus sobe ao céu levando a
nossa humanidade. Isso significa que o céu não está distante da vida humana. Em
Cristo, a humanidade entra na glória de Deus. Por isso, toda vez que
valorizamos a dignidade humana, defendemos a verdade, promovemos a paz e
preservamos o rosto e a voz do irmão, antecipamos um pedaço do céu aqui na
terra.
Que nesta Eucaristia peçamos ao Senhor a graça de
sermos discípulos missionários da esperança e comunicadores do amor. Que nossas
palavras tenham mais verdade, mais ternura e mais Evangelho. E que, num mundo
marcado por tantas vozes artificiais, nunca deixemos de reconhecer e preservar
aquilo que Deus criou de mais precioso: o rosto humano e a voz humana. Amém.

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