Meus irmãos e minhas irmãs,
o Evangelho de hoje começa com uma pergunta
muito humana. Pedro chega para Jesus e pergunta:
“Senhor, quantas vezes devo perdoar? Até sete
vezes?”
Pedro provavelmente achava que estava sendo
muito generoso. Sete vezes já seria bastante! Mas Jesus responde:
“Não te digo até sete vezes, mas até setenta
vezes sete.”
Jesus não está querendo que a gente fique
fazendo conta. Ele está dizendo: o perdão não pode ter uma calculadora.
1. O rancor pesa mais em quem guarda
A primeira leitura é muito direta:
“Perdoa a injustiça do teu próximo e, quando
pedires, serão perdoados os teus pecados.”
Todos nós sabemos como é difícil perdoar.
·
Às vezes alguém falou uma coisa que machucou.
·
Alguém da família decepcionou.
·
Alguém dentro da própria comunidade nos tratou
mal.
E a gente diz: “Eu perdoo, mas não
esqueço!”
E é verdade: algumas feridas não desaparecem
de um dia para o outro.
Mas existe uma diferença entre lembrar uma
ferida e alimentar uma ferida.
Quando eu fico remoendo, pensando todos os
dias naquilo, desejando que a outra pessoa sofra, o problema já não está
somente nela. O problema começa a morar dentro de mim.
O rancor vai roubando nossa paz.
Por isso, perdoar não significa dizer que
aquilo que aconteceu foi certo.
Perdoar é decidir que o mal que fizeram comigo
não vai determinar quem eu vou ser.
2. Jesus conta uma história para abrir nossos
olhos
No Evangelho, Jesus fala de um homem que tinha
uma dívida enorme.
Ele pede misericórdia ao rei e recebe o
perdão.
Mas, depois de ser perdoado, encontra alguém
que lhe devia muito menos. E, em vez de ter misericórdia, manda cobrar a
dívida.
É aí que está a grande contradição.
Ele queria misericórdia para si, mas não
queria oferecer misericórdia ao outro.
E Jesus está nos fazendo uma pergunta hoje:
“Você reconhece quanto Deus já perdoou você?”
Porque, antes de sermos pessoas que perdoam,
somos pessoas perdoadas por Deus.
·
Quantas vezes falamos sem pensar?
·
Quantas vezes julgamos alguém?
·
Quantas vezes prometemos mudar e voltamos a
cometer o mesmo erro?
E, mesmo assim, Deus continua nos acolhendo.
É isso que fazemos todas as vezes que rezamos:
“Perdoai as nossas ofensas, assim como nós
perdoamos a quem nos tem ofendido.”
Essa oração é bonita, mas também é exigente.
Porque estamos dizendo a Deus:
“Senhor, perdoa-me do jeito que eu também
procuro perdoar.”
3. A segunda leitura nos coloca no lugar certo
São Paulo diz:
“Ninguém de nós vive para si mesmo, e ninguém
morre para si mesmo.”
Isso vale muito para a nossa vida em
comunidade.
Nós não estamos aqui sozinhos.
Na família, na igreja, na pastoral, na
comunidade, sempre vamos encontrar pessoas diferentes de nós.
·
Tem gente que pensa e fala de um jeito
diferente.
·
Tem gente que tem outro temperamento.
·
Tem gente que nos irrita.
E nós também, meus irmãos, podemos irritar os
outros!
Por isso, uma comunidade cristã não é uma
comunidade de pessoas perfeitas.
É uma comunidade de pessoas que estão
aprendendo a amar, a pedir perdão e a perdoar.
Aqui na Paróquia, nós temos uma grande escola:
a misericórdia de Deus.
Se Deus é misericordioso conosco, nós também
precisamos aprender a ser misericordiosos uns com os outros.
4. O perdão começa nas coisas pequenas
Às vezes pensamos que perdoar significa fazer
algo extraordinário.
Mas, na maioria das vezes, começa com coisas
muito simples:
·
Parar de falar mal daquela
pessoa.
·
Não ficar jogando o erro
dela na cara.
·
Não alimentar fofoca.
·
Dar uma nova oportunidade.
·
Voltar a conversar.
·
Rezar por quem nos machucou.
E, quando for possível e seguro, dar o
primeiro passo para a reconciliação.
Talvez hoje Jesus esteja dizendo para alguém
aqui: “Chega de carregar isso sozinho.”
Talvez exista dentro de você uma mágoa antiga.
Uma coisa que aconteceu há meses.
Ou há anos.
E você continua carregando.
Hoje Jesus não está dizendo que sua dor não
importa.
Ele está dizendo: “Filho, filha, não deixe
essa dor destruir o seu coração.”
5. Perdoar é deixar Deus cuidar da ferida
E aqui precisamos entender uma coisa
importante:
Perdoar não significa aceitar abusos ou
permanecer em uma situação de violência.
Há situações que precisam de distância,
proteção, justiça e acompanhamento.
Mas mesmo quando precisamos manter distância,
podemos pedir a Deus:
“Senhor, tira do meu coração o ódio, a
vingança e o desejo de destruir aquela pessoa.”
Isso também é perdão.
Perdoar é entregar a Deus aquilo que eu não
consigo resolver sozinho.
História: A pedra na mochila
Conta-se que um homem procurou um padre e
disse:
— Padre, eu não consigo perdoar uma pessoa.
Ela me fez muito mal. Já faz anos, mas eu ainda sinto raiva.
O padre ficou em silêncio por alguns segundos
e então pediu:
— Pegue uma pedra e coloque dentro de uma
mochila.
O homem pegou a pedra e colocou na mochila.
— Agora carregue essa mochila durante o dia
inteiro.
Ele obedeceu.
Depois de algumas horas, voltou cansado e
disse:
— Padre, essa mochila está muito pesada!
O padre respondeu:
— A pedra não ficou mais pesada. Foi você
que ficou cansado de carregá-la.
E então disse:
— É assim que acontece com o rancor. Aquilo
que fizeram com você aconteceu uma vez. Mas, cada vez que você revive a ofensa,
a raiva, a conversa, a humilhação, você coloca novamente aquela pedra dentro da
mochila.
O homem perguntou:
— Então, padre, o que eu faço?
O padre respondeu:
— Abra a mochila e entregue a pedra a Deus.
— Mas eu não consigo esquecer!
— Você não precisa esquecer tudo de uma vez. Você
precisa parar de carregar.
Então, nesta semana, quando aquela lembrança
voltar e a pedra da sua mochila pesar, em vez de alimentar a raiva, façamos uma
oração: “Jesus, eu entrego esta pessoa a Vós. Eu entrego esta ferida a Vós. Eu
não quero mais carregar esta pedra.”
E assim, pouco a pouco, o coração vai ficando
mais leve. Porque perdoar não muda o passado, mas pode mudar o nosso futuro.
E quem aprende a perdoar começa a
experimentar, dentro de si, a mesma misericórdia que um dia recebeu de Deus.
Conclusão
Meus irmãos,
talvez hoje não consigamos perdoar tudo.
Tudo bem.
Comecemos por uma coisa.
Uma pessoa. Uma ferida. Uma situação.
E digamos:
“Jesus, eu ainda não consigo perdoar
completamente. Mas eu quero querer perdoar. Começa em mim.”
Porque o cristão não é aquele que nunca é
ferido.
O cristão é aquele que, mesmo ferido, não
permite que o ódio tenha a última palavra.
E nós somos discípulos do Pai
Misericordioso.
Então, nesta semana, façamos uma experiência:
não alimentar uma mágoa.
Não falar mal de alguém que nos feriu.
Rezar por essa pessoa.
E, se for possível, dar um pequeno passo em
direção à reconciliação.
Porque, no final, Jesus não quer apenas que
sejamos pessoas que receberam o perdão.
Ele quer que sejamos também pessoas que sabem
perdoar.
Que Nossa Senhora, Mãe da Misericórdia,
nos ensine a guardar no coração não as mágoas, mas a misericórdia.
E que São Vicente de Paulo, homem de
caridade e misericórdia, nos ajude a transformar nossa fé em gestos concretos
de amor.
Senhor Pai Misericordioso,
cura nossas feridas, liberta-nos do rancor
e ensina-nos a perdoar como nós mesmos somos perdoados por Vós.
Amém.

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