Meus irmãos e minhas irmãs, celebramos
hoje o 1º Domingo da Quaresma. Esse tempo tão bonito e tão
sério da nossa fé. É como se Deus nos tomasse pela mão e dissesse com carinho: “Volta
para casa. Volta para o essencial. Volta para Mim.”
As leituras de hoje nos colocam diante
de uma verdade profunda sobre a nossa vida.
Na primeira leitura, vemos o ser
humano criado por Deus com amor, colocado no jardim, cercado de cuidado, mas
também de liberdade. A tentação aparece como uma voz que confunde, que semeia
dúvida, que promete felicidade fácil. O problema não foi o fruto em si, mas a quebra
da confiança, o afastamento do coração humano daquele que é a fonte da
vida. Toda tentação começa assim: quando deixamos de confiar plenamente em
Deus.
São Paulo, na segunda leitura, nos
lembra que o pecado entrou no mundo por essa ruptura, mas também nos enche de
esperança: onde o pecado abundou, a graça de Deus superabundou.
Se por um homem veio a desobediência, por Cristo veio a obediência que salva. A
história não termina na queda, mas na redenção.
No Evangelho, contemplamos Jesus no
deserto. Ele também é tentado. Ele sente fome, cansaço, solidão. O deserto não
é apenas um lugar geográfico; é também o lugar das nossas lutas interiores.
Quantas vezes somos tentados a escolher o caminho mais fácil, a trocar a
fidelidade por vantagens, a colocar Deus em segundo plano?
Jesus nos ensina algo fundamental: não
se vence a tentação com força humana, mas com fidelidade a Deus. Ele
responde com a Palavra, confia no Pai, não negocia sua identidade de Filho. Ele
nos mostra que a verdadeira vitória não está em impressionar, dominar ou
possuir, mas em permanecer firmes no amor e na vontade de Deus.
A Quaresma é esse tempo de conversão,
de voltar o coração para Deus; tempo de penitência, não como
castigo, mas como remédio que cura; tempo de preparação para a Páscoa,
para que o Cristo ressuscitado nos encontre mais livres, mais sinceros, mais
cheios de fé.
Jejuar, rezar e praticar a caridade
não são obrigações vazias. São caminhos para fortalecer o coração, para
silenciar as vozes que nos afastam de Deus e escutar novamente a voz que nos
chama pelo nome.
Hoje, o Senhor nos convida a olhar com
honestidade para nossas tentações e fragilidades, sem medo, mas com confiança.
Ele não nos abandona no deserto. Caminha conosco. Sustenta-nos. Levanta-nos
quando caímos.
A fábula do lampião e do vento
Havia uma pequena aldeia cercada por colinas
e, no centro dela, uma estrada escura que todos precisavam atravessar ao
anoitecer. Para não se perderem, as pessoas levavam consigo um lampião aceso.
A chama era pequena, mas suficiente para iluminar o caminho.
Certa noite, um jovem caminhava com seu
lampião firme nas mãos. O vento, curioso e insistente, começou a soprar ao seu
redor e cochichou:
— Por que carregar essa chama frágil? Apague-a e caminhe mais leve. Eu
conheço o caminho.
O jovem hesitou, mas seguiu em frente
protegendo a chama com as mãos. O vento voltou a insistir:
— Veja como a chama vacila… confie em mim. Sem ela, você andará mais rápido
e sem esforço.
Cansado, o jovem pensou: “Talvez o vento
esteja certo”. E, num descuido, abaixou o lampião. O vento soprou forte… e
a chama se apagou.
No escuro, o caminho desapareceu. O jovem
tropeçou, caiu e sentiu medo. Chamou pelo vento, mas ele já havia ido embora.
Restou-lhe apenas o silêncio e a noite.
Com dificuldade, tateando no escuro, encontrou
uma pedra e ali se sentou. Do fundo do bolso, tirou uma pequena faísca guardada
— um resto de fogo que seu pai lhe havia dado antes da viagem, dizendo:
— Se a chama apagar, reacenda. Mas nunca caminhe sem luz.
O jovem soprou com cuidado. A chama voltou,
tímida, mas viva. E, protegendo-a com mais atenção, conseguiu atravessar a
estrada até chegar em casa.
No dia seguinte, contou a todos o que havia
aprendido:
— O vento promete atalhos, mas só a luz mostra o caminho. A tentação fala
alto e passa rápido; a fidelidade é silenciosa, mas nos leva em segurança.
Moral da fábula:
As tentações são como ventos fortes: prometem
facilidade, poder ou descanso, mas apagam a luz que guia nossos passos. Quem
guarda a chama da fé, mesmo pequena, nunca caminha sozinho nem se perde no
escuro.
Que esta Quaresma seja um tempo de reencontro, de fidelidade renovada, de coração convertido. Que aprendamos com Jesus a dizer “não” ao que nos afasta de Deus e “sim” ao amor que salva. Assim, chegaremos à Páscoa não apenas com ritos celebrados, mas com vidas transformadas.

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