terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

MIssão do Japão: Homilia – Quarta-feira de Cinzas 2026

 


Queridos irmãos e irmãs,

Com a imposição das cinzas iniciamos a Quaresma: quarenta dias de graça, de combate espiritual e de preparação para a Páscoa do Senhor. Não é um tempo triste, mas sério. Não é um tempo de medo, mas de retorno. A Igreja nos conduz ao essencial.

O profeta Joel nos transmite o clamor de Deus: “Rasgai o coração e não as vestes” (Jl 2,13). Deus não quer aparências, quer verdade. A cinza sobre nossa cabeça recorda nossa fragilidade: somos pó. Mas também recorda que esse pó é amado por Deus. A Quaresma é o tempo de voltar para Ele de todo o coração.

São Paulo reforça: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). Não é apenas um conselho, é um apelo urgente. Ele ainda diz: “Eis agora o tempo favorável”. Não é depois da Páscoa. É agora. Conversão não é adiar decisões; é permitir que Deus transforme hoje o que precisa ser transformado.

O sentido da Quaresma

A Quaresma é um caminho pascal. Durante quarenta dias, recordamos os quarenta dias de Jesus no deserto. É um tempo de combate interior, de purificação e de amadurecimento da fé.

Não é apenas “deixar de fazer coisas”, mas reaprender a amar:

  • amar a Deus com mais profundidade,
  • amar o próximo com mais generosidade,
  • amar a si mesmo com mais verdade.

É um tempo de revisão de vida. Tempo de sacramento da reconciliação. Tempo de reorganizar prioridades. Tempo de preparar o coração para celebrar a vitória da vida sobre a morte.

Jejum e abstinência: o que significam?

Hoje a Igreja nos propõe o jejum e a abstinência.

  • Jejum: reduzir a quantidade de alimento. É um gesto de disciplina e liberdade. Recorda-nos que não vivemos só de pão. Educa nossos desejos. Fortalece nossa vontade. O jejum nos ajuda a reorganizar nossa relação conosco mesmos. Ele nos ensina autocontrole, sobriedade e equilíbrio.
  • Abstinência: especialmente da carne, é um sinal de penitência e simplicidade. É um gesto concreto que nos lembra que a fé toca também nosso corpo e nossas escolhas diárias.

Mas atenção: sem conversão interior, o jejum vira dieta e a abstinência vira formalidade. O verdadeiro jejum é também jejuar do orgulho, da crítica, da indiferença, da violência nas palavras. É criar espaço para Deus.

Os três pilares: três relações que precisam ser curadas

Jesus, no Evangelho, nos apresenta três práticas fundamentais:

  1. Jejum – nossa relação conosco mesmos
    Ele nos ensina a liberdade interior. Jejuar é aprender a dizer “não” para poder dizer “sim” ao que realmente importa.
  2. Esmola – nossa relação com os irmãos
    A esmola não é dar o que sobra, mas partilhar o que somos e o que temos. Pode ser ajuda material, mas também tempo, escuta, perdão, presença.
    Não há verdadeira Quaresma sem caridade concreta.
  3. Oração – nossa relação com Deus
    “Entra no teu quarto.” A oração é intimidade, é silêncio, é encontro.
    É na oração que o coração se transforma. É nela que encontramos força para viver o jejum e a caridade.

A Campanha da Fraternidade 2026

Neste caminho quaresmal, a Igreja no Brasil nos propõe também a Campanha da Fraternidade 2026, cujo tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), nos ajuda a concretizar a conversão em compromisso social.

A Campanha da Fraternidade não é algo paralelo à Quaresma; ela é expressão concreta dela. Enquanto nos convertemos interiormente, somos chamados a transformar também as realidades que geram sofrimento, injustiça e exclusão.

A fraternidade nos lembra que não caminhamos sozinhos. Converter-se é também assumir responsabilidade pelo mundo em que vivemos. É olhar para as feridas sociais com o olhar de Cristo. É transformar penitência em solidariedade.

Se o jejum cura nossa relação conosco, a esmola cura nossa relação com os irmãos e a oração cura nossa relação com Deus, a Campanha da Fraternidade nos recorda que essas três dimensões precisam gerar compromisso com a vida, com a justiça e com a dignidade humana.

Queridos irmãos,

A cinza que hoje recebemos não é o ponto final. É o começo.
É o sinal de que queremos recomeçar.

Que esta Quaresma seja um verdadeiro êxodo interior:

  • jejuando para sermos mais livres,
  • partilhando para sermos mais fraternos,
  • rezando para sermos mais íntimos de Deus.

E que, ao chegarmos à Páscoa, possamos celebrar não apenas a Ressurreição de Cristo, mas a nossa própria ressurreição espiritual.

Amém.

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