Queridos irmãos e irmãs,
Com a imposição das cinzas iniciamos a
Quaresma: quarenta dias de graça, de combate espiritual e de preparação para a
Páscoa do Senhor. Não é um tempo triste, mas sério. Não é um tempo de medo, mas
de retorno. A Igreja nos conduz ao essencial.
O profeta Joel nos transmite o clamor de Deus:
“Rasgai o coração e não as vestes” (Jl 2,13). Deus não quer aparências,
quer verdade. A cinza sobre nossa cabeça recorda nossa fragilidade: somos pó.
Mas também recorda que esse pó é amado por Deus. A Quaresma é o tempo de voltar
para Ele de todo o coração.
São Paulo reforça: “Deixai-vos reconciliar
com Deus” (2Cor 5,20). Não é apenas um conselho, é um apelo urgente. Ele
ainda diz: “Eis agora o tempo favorável”. Não é depois da Páscoa. É
agora. Conversão não é adiar decisões; é permitir que Deus transforme hoje o
que precisa ser transformado.
O sentido da Quaresma
A Quaresma é um caminho pascal. Durante
quarenta dias, recordamos os quarenta dias de Jesus no deserto. É um tempo de
combate interior, de purificação e de amadurecimento da fé.
Não é apenas “deixar de fazer coisas”, mas
reaprender a amar:
- amar a Deus com mais profundidade,
- amar o próximo com mais generosidade,
- amar a si mesmo com mais verdade.
É um tempo de revisão de vida. Tempo de
sacramento da reconciliação. Tempo de reorganizar prioridades. Tempo de
preparar o coração para celebrar a vitória da vida sobre a morte.
Jejum e abstinência: o que significam?
Hoje a Igreja nos propõe o jejum e a
abstinência.
- Jejum: reduzir a quantidade de alimento. É um
gesto de disciplina e liberdade. Recorda-nos que não vivemos só de pão.
Educa nossos desejos. Fortalece nossa vontade. O jejum nos ajuda a
reorganizar nossa relação conosco mesmos. Ele nos ensina autocontrole, sobriedade
e equilíbrio.
- Abstinência:
especialmente da carne, é um sinal de penitência e simplicidade. É um
gesto concreto que nos lembra que a fé toca também nosso corpo e nossas
escolhas diárias.
Mas atenção: sem conversão interior, o jejum
vira dieta e a abstinência vira formalidade. O verdadeiro jejum é também jejuar
do orgulho, da crítica, da indiferença, da violência nas palavras. É criar
espaço para Deus.
Os três pilares: três relações que precisam
ser curadas
Jesus, no Evangelho, nos apresenta três
práticas fundamentais:
- Jejum – nossa relação conosco mesmos
Ele nos ensina a liberdade interior. Jejuar é aprender a dizer “não” para poder dizer “sim” ao que realmente importa. - Esmola – nossa relação com os irmãos
A esmola não é dar o que sobra, mas partilhar o que somos e o que temos. Pode ser ajuda material, mas também tempo, escuta, perdão, presença.
Não há verdadeira Quaresma sem caridade concreta. - Oração – nossa relação com Deus
“Entra no teu quarto.” A oração é intimidade, é silêncio, é encontro.
É na oração que o coração se transforma. É nela que encontramos força para viver o jejum e a caridade.
A Campanha da Fraternidade 2026
Neste caminho quaresmal, a Igreja no Brasil nos propõe também a Campanha da Fraternidade 2026, cujo tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), nos ajuda a concretizar a conversão em compromisso social.
A Campanha da Fraternidade não é algo paralelo
à Quaresma; ela é expressão concreta dela. Enquanto nos convertemos
interiormente, somos chamados a transformar também as realidades que geram
sofrimento, injustiça e exclusão.
A fraternidade nos lembra que não caminhamos
sozinhos. Converter-se é também assumir responsabilidade pelo mundo em que
vivemos. É olhar para as feridas sociais com o olhar de Cristo. É transformar
penitência em solidariedade.
Se o jejum cura nossa relação conosco, a
esmola cura nossa relação com os irmãos e a oração cura nossa relação com Deus,
a Campanha da Fraternidade nos recorda que essas três dimensões precisam gerar
compromisso com a vida, com a justiça e com a dignidade humana.
Queridos irmãos,
A cinza que hoje recebemos não é o ponto final. É o começo.
É o sinal de que queremos recomeçar.
Que esta Quaresma seja um verdadeiro êxodo
interior:
- jejuando para sermos mais livres,
- partilhando para sermos mais fraternos,
- rezando para sermos mais íntimos de Deus.
E que, ao chegarmos à Páscoa, possamos
celebrar não apenas a Ressurreição de Cristo, mas a nossa própria ressurreição
espiritual.
Amém.

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