Neste Domingo de Ramos, iniciamos a Semana Santa com um movimento
profundo: saímos em procissão com ramos nas mãos, aclamando Jesus como Rei, e,
logo em seguida, escutamos a narrativa da sua Paixão. A liturgia nos conduz do
entusiasmo à entrega, da festa à cruz. Não é contradição — é revelação: o
verdadeiro rosto de Cristo só se compreende quando unimos esses dois momentos.
No Evangelho da entrada em Jerusalém (Mt 21,1-11), Jesus é
acolhido com alegria, mas escolhe entrar montado num jumentinho. Esse gesto é
cheio de significado: Ele é um Rei, sim — mas um rei diferente, que não impõe,
não domina, não oprime. Ele vem com humildade, com mansidão, com um projeto de
paz. Já na narrativa da Paixão (Mt 27,11-54), vemos esse mesmo Jesus sendo
rejeitado, julgado e crucificado. Aquele que foi aclamado é o mesmo que será
abandonado. Aqui está um espelho da nossa própria vida: quantas vezes também
nós oscilamos entre acolher e rejeitar, entre seguir e desistir.
A primeira leitura (Is 50,4-7) nos apresenta o Servo Sofredor,
aquele que escuta a Deus e permanece fiel, mesmo diante da dor. Ele não foge,
não reage com violência, mas confia. Esse rosto se cumpre em Jesus. E São
Paulo, na carta aos Filipenses (Fl 2,6-11), nos revela o coração desse
mistério: Cristo se esvaziou, se fez servo, e foi obediente até a morte de
cruz. A lógica de Deus não é a do poder, mas a do amor que se doa
completamente.
Os ramos que carregamos hoje são mais do que um símbolo bonito.
Eles representam nossa decisão de acolher Jesus. Mas a liturgia nos provoca:
esse acolhimento é superficial ou verdadeiro? É só um momento ou é um
compromisso? Porque seguir Jesus não é apenas cantar “Hosana”, mas também
caminhar com Ele quando a cruz aparece.
Por isso, a Igreja no Brasil nos convida, neste dia, a dar um
passo concreto com a Coleta da Solidariedade, expressão da Campanha da
Fraternidade 2026. Não basta contemplar o Cristo que sofre — somos chamados a
reconhecê-Lo nos que sofrem hoje. A coleta é um gesto simples, mas
profundamente evangélico: partilhar, cuidar, assumir responsabilidade com os
mais pobres. É transformar a fé em caridade concreta.
E qual ação prática podemos
assumir hoje?
Levar para esta semana uma decisão simples, mas verdadeira: escolher um
gesto concreto de amor que custe algo de nós. Pode ser
reconciliar-se com alguém, visitar uma pessoa doente ou solitária, ajudar uma
família necessitada, escutar com paciência quem precisa, ou fazer uma oferta
generosa na coleta. O importante é que não seja algo automático, mas uma
resposta consciente ao amor de Cristo.
Neste Domingo de Ramos, a liturgia nos convida a deixar de ser
apenas espectadores e nos tornarmos discípulos. Não apenas admirar Jesus, mas
segui-Lo. Não apenas carregar ramos nas mãos, mas carregar no coração a decisão
de amar como Ele amou.
Que ao longo desta Semana Santa possamos caminhar com Cristo — da entrada em Jerusalém até a cruz — com a certeza de que o amor vivido até o fim sempre conduz à vida nova.
Amém.

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